Ícaro: Canto dos Xamãs Vegetalistas

O conhecimento e uso da música, em especial o canto, como elemento curativo do saber xamânico está presente entre alguns curandeiros mestiços, chamados vegetalistas ou “maestros”, que além de curar e praticar tarefas xamânicas com tabaco e “plantas mestras” e com a ajuda de uma substância mágica chamada virote, flema, mariri, yausa ou yachay, também usam cantos mágicos chamados ícaros, mediante os quais se comunicam com o mundo dos espíritos e exercem seus poderes. Os vegetalistas adquirem estes poderes dos espíritos da natureza (plantas e animais), de xamãs ou vegetalistas falecidos. A principal planta usada é a ayahuaska a qual podem agregar outras. A estas plantas as chamam professoras porque a têem a convicção de que através de sua ingestão elas ensinam os xamãs.

O período de iniciação pode durar desde alguns meses até vários anos; as plantas que ingerem periódicamente fazem com que tenham que fazer jejum e guardar abstinência sexual. Se afirma que neste aprendizado as mães das plantas se apresentam ao iniciado e ensinam a maneira de diagnosticar e curar enfermidades, como dominar espíritos malignos, como viajar através do tempo e do espaço. Também pode aparecer um ancião tanto nas visões produzidas pela ayahuaska como em sonhos e ensinar-lhe estes poderes. Porém esta aprendizagem se faz através da música: os poderes se adquirem principalmente através da memorização dos ícaros, cantos que o vegetalista aprende dos espíritos das plantas, animais, pedras, lagos, montanhas, etc. durante as visões produzidas pela ayahuaska ou em sonhos, além de herdarem alguns de seus “maestros”.

Cada planta tem seu próprio ícaro e é usado para diferentes aplicações, existem ícaros específicos para curar determinadas enfermidades ou buscar certos efeitos como alcançar o amor de uma mulher, chamar o espírito de uma pessoa, apanhar peixe, etc. O processo de cura pode se cantar só o ícaro, usar como reforço das plantas medicinais ou cantar também no preparo de uma aplicação da planta. Existe certa hierarquia entre os ícaros e cada xamã possui um principal, que representa a essência de seu poder.

Normalmente o primeiro que se aprende dos ícaros é uma melodia musical que se vai impregnando a memória e essência do xamã. Posterioremente durante as cerimônias ou dietas, as letras que formam o conteúdo do ícaro, vai vindo a sua mente por intuição.

O ícaro surge do fundo da alma do xamã e, no princípio pode ser algo sutilmente perceptível conforme o tempo e as cerimônias vão transcorrendo o ícaro vai tomando forma.

O mais importante a ter em conta é que ao começar a receber um ícaro tem que deixar o consciente parado e fluir com a energia do momento.

A língua utilizada em alguns ícaros que se cantam é em espanhol e alguns outros tem a letra em quechua, em kokama ou em omagua; se considera que os ícaros cuja a letra esteja em língua indígena tem mais poder. Alguns vegetalistas cantam uma mescla das três línguas para confundir e impressionar a outros xamãs.

Geralmente as letras se atribuem as características de um animal para alcançar o efeito que se busca através do ícaro específico deste animal. A melodia por si mesma tem poderes curativos. A letra deve ser claramente inteligível para que todos conheçam o espírito do animal que se invoca.

Há tantos ícaros como xamãs ayahuasqueros. Cada um tem seu ícaro pessoal. Ele é o que confere a qualidade do poder.

Existe ícaros para começar a cerimônia. Ícaros para proteger o lugar. Ícaros para cobrir com um “manta de piedra”; coisa que fará que as energias negativas externas não façam mal ao paciente. Ícaros para chamar a cada planta. Ícaros para curar “el susto “, bebés, etc.

Poderia extender-me em definir um número sem fim de ícaros. O que considero uma curiosidade é que alguns ayahuasqueros intentam cantar seus ícaros com um tom e palavras dificilmente imitável; já que se tem a crença de que se outro ayahuasquero tentar canta-lo, o poder deste ícaro é sugado pelo xamã imitador deixando o xamã criador do mesmo sem o poder e proteção que o dito ícaro o proporcionava.

O ícaro auxilia também ao xamã vegetalista entrar em êxtase sem ajuda da ayahuaska.

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