Os Ancestrais

Dentro de qualquer que seja a tradição nativa, sempre escutamos um termo chamado Ancestrais. Sabemos que nós como todas as coisas no mundo são compostas de energias que estão ligadas a Grande Teia Cósmica. Mas o que vem a ser Ancestrais? Bem, não posso falar das outras tradições iniciáticas, porém dentro da minha eles são determinados padrões de energia que podemos sentir e nos comunicar. Eles são os links com as outras camadas da cebola. São os elos de ligação entre nosso mundo ordinário, que sentimos e pensamos conhecer, o Universo vasto e insondável de energia, e com um potencial ilimitado que sustenta o nosso mundo. Tudo aquilo que sentimos e percebemos é apenas a superfície de uma vasta realidade; constituindo um espetáculo holográfico de som e luz. Nosso corpo, mente, percepções, sentimentos e as coisas que compõem o que chamamos de Tonal, fazem parte desse espetáculo, dessa profunda vastidão invisível por trás do mundo superficial.

Devemos deixar bem claro que os Ancestrais não são “de outro mundo”. É um erro pensar neles como entes separados de nós. Eles não vivem fora de nós, assim como não podemos pensar que somos separados uns dos outros e do Universo. No entanto, podemos nos relacionar com os Ancestrais como se fossem distintos de nós, exatamente como nós nos relacionamos uns com os outros. Podemos invoca-los, pedir que respondam e que ajudem. Eles certamente não irão nos salvar de nós mesmos, isto cabe a nós, mas podem nos ajudar e estão dispostos a faze-lo. Os Ancestrais adquirem vida no nosso mundo e fazem-se conhecidos para nós, desde que os invoquemos com um desejo sincero, motivado por uma genuína preocupação com nós mesmos e com os outros.

Para sentirmos os Ancestrais, e dançar com eles devemos nos livrar das amarras que nos prendem à lógica obtusa, às idéias estanques que recebemos dos livros e professores que, por sua vez, as herdaram da sociedade em que vivemos. Sendo assim, perpetuamos uma certa visão do mundo, um mito moderno, sem perceber ser ele um mito de criação particular entre muitos. Algumas de nossas crenças contam um pequeno trecho da História do Universo, mas seria arrogância acreditar que se trata do único mito, a solução para o ilimitado milagre do Universo e sua imensidão.

Não é necessário sermos grandes xamãs ou sábios para convidar os Ancestrais a entrarem em nosso mundo. Somos ao mesmo tempo, pessoas comuns e especiais. Podemos sempre invoca-los, mas precisamos ter o coração limpo e intenções sinceras. Não podemos convoca-los com ganância e ambição. Não podemos estabelecer esta ligação pensando e raciocinando. Só podemos nos conectar a eles a partir de uma mente e um coração puro. Antes de tudo, devemos abandonar nossas idéias fixas a respeito de nós mesmos e de nossa história, a respeito de como é o mundo. Temos que relaxar o nosso corpo e a mente, até não termos mais nada na mente. Quando nossa mente estiver aberta e calma, podemos invocar os Ancestrais.

Temos que estar no tempo dos Ancestrais, que é o aqui e agora, para nos comunicarmos com a realidade. Eles são como milhos de pipoca que se expandem e estouram. Estalam, crepitam e estouram, e nós podemos estourar com eles. Quando estouramos juntos, sentimos que somos parte da mesma energia. Temos apenas que estourar no mesmo instante, de estourar agora.

Quando relaxamos e estouramos, podemos ouvir os Ancestrais no bater das asas do Beija-Flor, nos sons do vento, da cachoeira e da chuva. Podemos senti-los numa folha que cai e brilha a luz do sol, quando flores desabrocham na primavera, quando as nuvens se unem anunciando a tempestade. Podemos sentir os Ancestrais em lugares sagrados, nos locais de poder, nos momentos de inspiração criativa e em todo o nosso mundo quando lhe damos atenção e cuidado.

A maioria dos homens e mulheres de hoje acredita que os seres humanos, outros animais e plantas são os únicos seres a sentir e se comunicarem, embora povos inteligentes e sensíveis do mundo inteiro tenham vivido, cantado e dançado com diversos padrões de energia durante milhares de anos.

Nos dias atuais, os Ancestrais receberam dezenas de nomes, tais como anjos, deuses, deusas, guardiões, mentor espiritual, orixás, entre tantos outros. Porém todos são termos limitados. Na minha tradição iniciática, ao irmos para o meio da natureza e calarmos aquela voz dentro de nossa mente que teima em falar, aprendemos a conversar com os Ancestrais e principalmente como nós mesmos de uma maneira nova e profunda. Neste momento, aprendemos a nos comunicar mais abertamente com nosso universo e a estar consciente de nosso papel de co-criadores e participar da evolução deste universo. Foi me ensinado que precisamos começar agora a usar essa forma de comunicação diariamente. Isto exige uma alegre expansão da nossa visão da realidade, a prontidão de como Guerreiros estarmos abertos para nós mesmos e para o nosso ambiente e o movimento consciente de abraçarmos nossa totalidade.

Nossos Ancestrais não tem um corpo físico; seus corpos e essências existem num vácuo, um lugar inteiramente vazio da matéria. Mas vazio não significa dizer que não existe nada ali. Em algumas tradições eles habitam as montanhas sagradas, outras acreditam que vivem no mar ou nos fundos dos rios, já a grande maioria crê que eles vivem acima das nuvens. Segundo a minha tradição iniciática, eles são os Guardiões da Terra e estão associados a objetos naturais como o sol, as montanhas, os rios, árvores e rochas; aos fenômenos naturais, como o vento e o trovão; aos animais de poder; e aos espíritos ancestrais, como eles são verdadeiramente. Cada um possui característica própria e tem uma missão particular.

Como observamos, os Ancestrais manifestam-se num grande número de culturas em todo mundo. Eles aparecem de formas diferentes, mas existe uma essência comum em todas elas: são as formas que os seres humanos encontram de entrar em contato com a energia, a profundidade e o poder no mundo real. Muitos se perguntam se existe alguma maneira de entrarmos em contato com os Ancestrais em nossa cultura moderna. Claro que sim! É possível para todos nós restabelecer a ligação com eles e trazer essa energia para nosso mundo a fim de cura-lo e alegrando nossa vida.

Os Ancestrais são expressões da co-criação interdependente da qual tudo toma parte. Os Ancestrais, os seres humanos, os animais, as plantas e as pedras só existem dentro da rede de existência interligada, em eterna transformação e mutuamente co-criadores da existência.

Muitas pessoas teimam em comparar os Ancestrais com a idéia de “Deus”, mas isto não é apropriado. Nenhum Ancestral existe como um ente objetivo, um agente exterior da graça ou salvação, como concepção ocidental de Deus. Não existe nenhum Ancestral “criador”.

Termos hoje utilizados como Deus, Criador, Grande Espírito, não são nomes adequados para Sakoiatisan, Wakan Tanka, Taiowa, Wiracocha e Kitche Manitou. Isto são falhas nas línguas, não da idéia. Deus ou Deusa é um termo que sugere um ser antropomórfico, que vive fora dos seres humanos e da natureza. Criador é um termo masculino atribuído a causa primeira. Esses seres são capazes de criar mundos e outras formas de vida, podiam ser masculinos ou femininos. Taiowa e Wakan Tanka não são divindades masculinas. Esses nomes representam a soma de todas as coisas. Até mesmo a palavra espírito, que eu tanto utilizo, tem suas limitações. A expressão Grande Espírito tenta definir o que é incompreensível. Precisamos compreender que estes termos – Deus, Criador, Grande Espírito – tem sido utilizados pelos Guardiões da Sabedoria para transmitir o conceito de que todas as coisas estão interrelacionadas e são uma parte igual do todo, lembrando que somos gotas de chuva que um dia retornarão ao oceano, e tal como tochas acesas pelo fogo do sol somos eternamente parte dele.

Os Ancestrais vivem no nível da energia, do seu sentimento da luminosidade das coisas. Seria adequado chamar “esfera” ou “espaço” como “nível”. Quer pensemos nelas como níveis, espaços ou esferas, as maneiras de contactar os Ancestrais não são extrínsecas ao mundo ordinário, elas estão aqui. O espaço vivo, dos Ancestrais interpenetra o mundo ordinário, assim como o espaço físico interpenetra todas as coisas materiais, embora estas pareçam ser sólidas e ocupar espaço, de modo que as esferas material e especial parecem diferentes. Os Ancestrais encarnam qualidades, como a delicadeza, a coragem e a sutileza do intelecto. Estão ligados ao corpo e ao ambiente, aos objetos naturais, como as árvores e as rochas, os lagos e as montanhas, aos fenômenos naturais como a chuva e os furacões, e as atividades humanas, como cozinhar, tecer, talhar a madeira e construir.

Entrar em contato com os Ancestrais por meio de ritual e de prestar atenção à condição sagrada do mundo traz harmonia para nosso ser individual e grupal. A harmonia começa dentro de nós mesmos, dentro da harmonia do corpo e da mente, e estende-se para criar a harmonia com as outras pessoas, dentro da comunidade, entre as comunidades e com o Universo. Todas essas harmonias são necessárias para a totalidade e a saúde.

A harmonia não deve ser confundida com a total bem-aventurança ou paz. A harmonia é o correto funcionamento de tudo de acordo com sua natureza. Uma tempestade, a erupção de um vulcão e a explosão de uma estrela encerram uma tremenda harmonia. Existe harmonia num grito raivoso, se isto é necessário. A harmonia é desperta, apaixonada, poderosa e perfeita. Os Ancestrais são invocados para preservar e cultivar a harmonia neste sentido.

Harmonia é sinal de saúde. Quando a harmonia é rompida, a doença (dês-harmonia) manifesta-se e a cura se faz necessária. Entrar em contato com os Ancestrais pode nos ajudar na cura, mas esta é, na verdade, uma segunda conseqüência de os invocarmos. Só necessitamos ser curados quando nos sentimos doente. O importante, em primeiro lugar, é não ficarmos doentes, e é aqui que a ligação com os Ancestrais é vital. Os povos nativos relacionam-se com seus Ancestrais por meio de rituais de dança e música a fim de conservarem a saúde.

Ter harmonia na atividade humana significa ver como as coisas são e agir de acordo com esta visão. Quando acordamos e estamos totalmente presentes, aqui e agora, podemos ter um vislumbre dos padrões de energia dos Ancestrais; podemos ver como as coisas são, sua verdadeira natureza. Mas também podemos trabalhar com a nossa mente e com o nosso corpo, com a nossa realidade física e emocional, para cultivar efetivamente essa energia dos Ancestrais e convida-la a entrar em nossa vida. Aí, então, os Ancestrais podem nos ajudar a despertar para a realidade de como são as coisas. Podemos invoca-los, e até mesmo motiva-los, a se aproximarem.

Vivemos numa era de comunhão de energias. Os Ancestrais estão se apresentando para nós agora. Estão oferecendo sua ajuda para nos curar e animar, para alegrar a Terra e seus habitantes e tornar-nos completos. Mas, se quisermos fugir, eles não podem nos perseguir, não podem investigar mais a fundo nossa difícil situação. Não podem fazer nada por nós enquanto não entrarmos em contato e nos comunicarmos com eles. Tudo o que podem fazer é plantar a semente em nosso coração e esperar que nos tornemos receptivos a eles.

Os Ancestrais tem o poder de trazer paz e harmonia, porque transcendem a idéia da inimizade, estando, por conseguinte, completamente livres da agressão. Quando tocamos essa energia, sentimos que o mundo está vivo, que é autêntico e precioso. Sentir a energia dos Ancestrais impele-nos a nos preocuparmos com nosso mundo. Se o mundo está vivo e se você é uma parte desse mundo vivo, não mais se desejaria violá-lo, assim como não se desejaria violar outro ser humano ou outro ser vivo. Os Ancestrais sustentam e protegem a ordem natural e a harmonia dinâmica do Cosmo. Quando se entra em contato com eles, consegue-se sentir essa harmonia maior. Você pode sentir seu lugar nessa ordem natural e colocar sua energia a serviço dessa harmonia maior.

Precisamos apreciar o mundo que temos. De nada adianta o rejeitarmos e tentarmos afastar a energia vinda em nossa direção. Não adianta culparmos a tudo e a todos pela nossa falta de conexão. Mas também não adianta querer sempre ver ou ouvir apenas coisas belas ou fantásticas. De uma maneira ou de outra, afastamos os Ancestrais. Às vezes, a realidade é dolorosa, monótona e feia, mas sempre vivencial – ainda podemos apreciar suas qualidades duras e difíceis.

Quando apreciamos o mundo, nós o vivenciamos como sagrado e queremos tomar conta dele. Não existe separação entre o sagrado e o profano, tudo é sagrado no mundo dos Ancestrais. Apreciar o sagrado começa com um interesse por todos os detalhes da vida. Até mesmo os aspectos aparentemente mundanos da vida podem contribuir para essa sensação global do sagrado e da presença dos Ancestrais. Precisamos ser inquisitivos e examinar mais as coisas: ouvir mais as pessoas, os sapos, o som da chuva; precisamos ver profundamente em vez de olhar casualmente para as coisas. Precisamos deixar nosso coração ser tocado, parar de pensar a respeito das coisas como problemas a serem resolvidos e começar a apreciar a magia e o mistério de nossa vida. Se vivermos com estas atitudes e intenções, certamente atrairemos os Ancestrais para poderem nos ajudar a despertar para a harmonia, a beleza e o poder do mundo sagrado.

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