Sachamama

Sachamama é a Deusa-Serpente e das emoções da cosmologia andina. Para o xamã, essa ocasião acontece solitariamente, diante de uma fogueira, quando ele invoca os aspectos individuais do seu passado, para que se perfilem diante dele como testemunhas diante do tribunal.

“Construímos nosso presente com retalhos do passado, tentando evitar as situações que nos causaram sofrimento e procurando recriar aquelas que nos proporcionam prazer. Somos vítimas indefesas.” Don Jicaram

Sachamama nos ensina a nos desprendemos de nosso passado, como a serpente se desprende de sua pele. É ele que nos mostra como vivemos à mercê do nosso passado. Os traumas sofridos ontem alimentam-se hoje de nossos medos. Os momentos de alegria que nutrem o presente limitam nosso futuro, à medida que procuramos recriar as circunstâncias em que essas alegrias tiveram lugar.

Diante da fogueira, ainda tendo nas minhas mãos a cuia com o Yagé viscoso e amargo, escutei a voz macia de Sachamama:

“Todo e qualquer conhecimento somente pode ser atingido quando dispusermos de força para influenciar o destino, e o nosso destino é uma vítima constante do seu passado. O espírito não pode se desenvolver enquanto carnes mortas estão apegadas a ele.

A uma certa similaridade dentro da filosofia Tolteca que alude à necessidade de que apaguemos nossa história pessoal, referindo-se não só à necessidade de mudar nosso jeito de ser e de viver, como também propor a possibilidade de tal mudança dar-se como efeito da ruptura com a determinação do passado que os toltecas denominam “história pessoal”.

Esta possibilidade costuma parecer tão estranha, talvez por causa da nossa tendência a entender o passado não apenas como aquilo que nos dá fundamento, mas também como algo inamovível, tornando-se assim a justificativa perfeita para não mudar. Durante anos, eu escutei as pessoas dizerem que querem mudar, ao mesmo tempo que fazem o possível para ficarem do mesmo jeito. Geralmente lançam mão do passado para se justificar. “Nunca aprendi a ser disciplinado…”; “é que sou fraco…”; “ é que me superprotegeram…”; sempre tem algo haver com o passado.

Além disto, apagar a história pessoal é uma possibilidade xamânica, que dificilmente encaixa na lógica racional. Apagar o passado. Em vez de tentar superá-lo, simplesmente apagá-lo. Esta possibilidade não se refere a cancelar os atos passados, mas a renunciar à relação que estabelecemos com eles, cuja expressão mais geral é nosso jeito de ser e viver.

A questão é, se é a minha história pessoal o principal obstáculo para a mudança e a liberdade, então poder apagá-la representa também a oportunidade de ser livre.

A resistência a comportarmo-nos de jeito novo provém de nos acharmos incapazes de fazer qualquer coisa que não faça parte do inventário das nossas ações passadas. Resistimos a mudança. Ao mesmo tempo, quando começamos a lutar para mudar, a nossa história pessoal se coloca como maior obstáculo a vencer. As pessoas que nos conhecem tendem a ser contra, pois, estando tão familiarizado com nossa história pessoal, não admitem que ajamos em discordância dela. Isto acontece porque o encontro com o desconhecido coloca para essas pessoas o problema de não saberem lidar com algo porque não foram treinadas para isso e, portanto, procurarão evitá-lo.

A luta para apagar a história pessoal é contra algo que não se encontra apenas internalizado em nosso próprio ser, o que dá certa segurança ao ego, mantendo-o numa realidade que, mesmo se for desagradável, pelo menos é familiar, mas que é também uma história internalizada naqueles que nos conhecem e que por sua vez se sentem seguros. Não há nada mais ameaçador que lidar com uma pessoa que não podemos classificar. Isto é, a história pessoal nos fornece um ou vários rótulos com base nos quais reduzimos nossa pessoa a alguns traços. Assim também classificamos a todos que conhecemos em função de rótulos similares que deduzimos da história pessoal, real ou imaginária, de cada um. Como não podemos lidar com o mistério, preferimos lidar com rótulos. Por isso é que ninguém nos surpreende. Quanto mais rápido conseguirmos colocar esses rótulos, mas seguros nos sentimos de nós mesmos.

A filosofia Tolteca aconselha que se quiser-mos ficar livres da carga dos pensamentos alheios, devemos começar a apagar-nos, criando uma névoa ao nosso redor que nos torne um ser misterioso e imprevisível. O estratagema não visa apenas as outras pessoas. Devemos nos apagar até virar um desconhecido para si mesmo. Isso é congruente com o terceiro preceito dos espreitadores, de se considerarem, eles próprios, mais um mistério entre os mistérios do mundo.

A perda da certeza quanto ao que supostamente somos, e que emana da história pessoal, é coerente e recíproca com a perda de certeza a respeito do que normalmente consideramos mundo real. Novamente, vemos que a realidade do ego e a realidade externa não passam de uma descrição. Portanto, o processo de apagar não se aplica apenas a história pessoal, mas também à descrição habitual do mundo.

O campo de batalha que se descortina para além da descrição, é o campo do desconhecido, o campo onde nada está escrito, nem nós nem o mundo. É portanto, onde podemos criar, escolher, ser o que quisermos. O campo da liberdade.

Voltando para a Roda da Medicina dos Ventos, verificamos que é necessário aplacar o medo. O medo é o reino do Oeste, onde vai se defrontar a morte. Entretanto, não poderá se exorcizar a morte enquanto não completar o trabalho com Sachamama. É como um círculo vicioso.

É ela que nos ensina a exorcizar o passado que nos persegue, nos prende e nos restringe. O Oeste é onde perdemos o medo ao enfrentar a morte e nos libertamos do futuro desconhecido.

O xamã é um guerreiro espiritual, que habilmente mantém contato direto nos planos que visita em “vôos espirituais”, enfrentando constantemente o medo e a morte nessas viagens.

Sêneca disse: “A humanidade é tão cega, que alguns homens são levados à morte, exatamente por temê-la”. No meu modo de ver, não devemos enfrentar a morte criando experiências que o aproximem dela. A morte é o ato mais poderoso de um xamã. O vôo do espírito, o estado xamânico de consciência, é uma jornada além da morte. Aprender a morrer é aprender como viver, pois se a vida nos solicita, da morte nada podemos solicitar. De certo modo, uma pessoa de poder passa a vida toda aprendendo a morrer, já que está é a única certeza que temos durante a vida.

O xamã é um guerreiro espiritual que não possui inimigos, e está livre dos desejos e do medo: os desejos são criados pelas nossas experiências passadas, e o medo da morte apavora nosso futuro. Os xamãs nascem duas vezes, uma da mulher, outra da Mãe Terra.

Realizando a jornada do Oeste na Roda da Medicina dos Ventos e enfrentando o Jaguar em sua vida, o guerreiro espiritual não apenas se liberta para viver integralmente o presente, mas sabe que caminho tomar quando a morte vier, e ela também o reconhecerá. É no Oeste que o corpo e o espírito, a Wiracocha, se separam. Isso significa morrer com consciência, de olhos abertos. É a maneira de deixar este mundo vivo.

O corpo é uma veia de consciência, de vida e de energia.

Quando morremos com consciência, deixamos para trás o invólucro e nos identificamos com seu conteúdo. E isso é Deus. Força de vida, energia, chame-a como quiser. É a matéria de que são feitos os sonhos e o cosmos.

A certeza de que somos constituídos de substância somática e espiritual é fundamental para a experiência xamanista. Se durante a existência aprendermos a nos separar do corpo físico, a tomar conhecimento de que somos “seres de luz”, a descobrir o vôo do espírito, poderemos morrer com consciência, morrer para carne e renascer no espírito, no espírito que reivindicamos e com o qual já tivemos contato.

É na experiência da vida através da morte que nos tornamos guerreiros espirituais e nos identificamos com a força da vida.

Não estamos conectados a esta Terra por um período finito de tempo, entre o nascimento e a morte. E Deus não vem de algum lugar lá em cima, Ele existe além do tempo e do espaço, e impregna a vida.

A Mãe-Terra é nosso lar, e uma vez que transcedemos o jogo das sombras, ao qual denominamos de realidade biológica, e nos identificamos com a força divina, percebemos que não temos escolha, e nos transformamos em curadores da Terra.

O círculo da Roda da Medicina é um grande espiral. Não pensem que porque nos reconciliamos com o passado e libertamo-nos da morte e do medo do futuro, estaremos vivendo como um guerreiro, pisando firme no presente como se fosse uma criatura de poder. Não podemos nos permitir cair na armadilha pela simplicidade desta teoria. O presente não dura. Converte-se em passado assim que o expomos. É a sombra que produzimos. É nossa sombra.”

A luz violeta brilha intensamente no meio da floresta, flutuo acima do chão. A minha mente funciona de modo diferente, como seu eu fosse um novo ser, sem lembrança alguma do meu passado. Não tenho medo, apesar da escuridão, estou consciente e receptivo as mensagens de Satchamama. Não há mais ferida no meu coração, ao assumir o meu sofrimento diante da fogueira, minha jornada de cura começou. Fiquei enraizado a Terra e ao sofrimento compartilhado com as outras pessoas, impulsionando-me a realizar minha individualidade através do serviço que posso prestar. Diante da fogueira descobri através de Sachamama que não poderia ser íntegro e completo sem incorporar minha própria mágoa e transforma-la, pois somente assim poderia compartilhar a dos outros.

Meu corpo jaz estendido no chão, sinto algo frio e liso se contorcendo na minha mão esquerda. Abro-a com intuito de jogar longe, o que está lá, mas uma força maior não me deixa fazer isto. Sinto a serpente na minha mão com todo seu poder. A sensação de segura-la é estranha. Uma voz que já conheço diz que preciso encontrar o equilíbrio entre eu e o poder da Serpente que seguro. Não posso aperta-la demais, pois se a ferir ela me picará. Mas se não segura-la com firmeza o bastante, ela irá escapar e irei perde-la. Necessito encontrar o equilíbrio correto e saber mantê-lo. Tenho que ouvir mais a voz do meu Coração, a voz da Senhora das Emoções.

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