Coiote – “O Trapaceiro”

Vindo do sul em direção ao norte, Coiote criou os pássaros e animais enquanto ia por seu caminho. Primeiro criou as montanhas, as pradarias, árvores e arbustos, distribuindo rios aqui e ali e quedas d’água sobre eles, colocando tinta vermelha aqui e ali no solo, arrumando o mundo da maneira que o vemos hoje. Cobriu as planícies com pastagens, para servir de alimento aos animais. Colocou árvores sobre a terra, bem como todas a espécies de animais. E quando fez o carneiro silvestre com sua enorme cabeça e chifres, colocou nos prado. Ele pareceu não se dar bem neste espaço, de maneira que seu criador pegou-o pelos chifres e levou-o para as montanhas onde o deixou solto; ali, ele saltou entre as rochas e foi parar em lugares íngremes com facilidade. Então, o criador disse: “Este é o local apropriado para você; para isso você foi feito, para as rochas e montanhas.” E enquanto estava lá nas montanhas, ele fez o antílope do barro e soltou-o para ver como se comportaria. Mas o animal correu tão rápido que caiu nas rochas e se machucou. Vendo que ele na se daria bem ali, pegou o antílope e levou-o consigo, soltando-o nas pradarias. O animal correu graciosamente e ele disse: “Foi para este meio que você foi feito.”

Um dia, ele decidiu que faria uma mulher e uma criança e fez ambos do barro. E, depois de ter moldado a argila em forma humana, ele disse: “Vocês serão pessoas.” Cobriu as formas e foi embora. Na manhã seguinte, ao retornar, retirou a proteção e viu que as formas tinham mudado um pouco. Na segunda manhã, tinham mudado um pouco mais e, na terceira, mais ainda. Na quarta manhã, quando retirou a coberta, olhou para as figuras e mandou-as levantar e andar, e elas o obedeceram, Elas caminharam com ele até o rio e então ele lhes disse que seu nome era Velho Homem.

E enquanto estava lá à beira do rio, a mulher perguntou a Velho Homem: “Como é isso? Vamos viver sempre, não haverá fim?” E ele respondeu: “Jamais pensei nisso. Temos que decidir. Pegarei este pedaço seco de estrume de búfalo e jogarei no rio. Se ele flutuar, as pessoas morrerão apenas por quatro dias. Mas se lê afundar, haverá um fim para as pessoas.” Ele lançou o pedaço de estrume no rio e o estrume ficou boiando. A mulher pegou uma pedra e disse: “Não, não deve ser assim. Vou atirar esta pedra na água e se ela boiar, viveremos para sempre, mas se afundar, as pessoas terão que morrer para que elas possam ter pena uma das outras e umas lamentarem as outras.” A mulher atirou a pedra na água e a pedra afundou. “Muito bem!”, disse Velho Homem: “Você escolheu! E assim será!”

As primeiras pessoas eram simples, andavam nuas e não sabiam como viver, mas Velho Homem mostrou-lhes raízes e bagas e disse-lhes como comê-las, e ensinou-lhes que em certo mês do ano elas poderiam tirar a casca de certas árvores e comê-las e que seriam gostosas. Disse-lhes que os animais deveriam ser seu alimento. Ele fez todos os pássaros que voam e informou-as de que sua carne podia ser comida. E sobre uma determinada planta ele disse: ” A raiz desta planta, se colhida em determinado mês do ano, é boa para certas doenças”. E assim, as pessoas aprenderam sobre o poder de todas as ervas.

Velho Homem ensinou as pessoas a fazer armas de caça e a matar e abater búfalos e, como não é saudável comer carne crua, juntou pedaços de lenha branda, seca e podre e fez gravetos dela; pegando um pedaço duro de madeira, fez um furo nele com a ponta da flecha, e ensinou-as a fazer fogo e a assar a carne dos animais e comê-la.

E então ele lhes disse: “Quando vocês ficarem enfraquecidos, devem dormir para ganhar forças. Algo aparecerá em seus sonhos e isso os ajudará. O que quer que os animais que apareçam em seus sonhos disserem para fazer, vocês terão que fazer. Eles serão seus guias. Se vocês precisarem de ajuda, estiverem andando sozinhos e gritarem por socorro, seus pedidos serão atendidos, talvez pelas águias, pelo búfalo, pelos lobos ou ursos. Qualquer que seja o animal que responder às suas súplicas, vocês terão que obedecê-lo.” E foi assim que as primeiras pessoas atravessaram o mundo, pelo poder dos seus sonhos.

Quando Trapaceiro, no fim de sua perambulação, deixou a terra, ele fez um caldeirão e um prato de pedra, preparou uma refeição e disse: “Agora, pela última vez, comerei uma refeição na terra.” Sentou-se sobre uma rocha e seu assento nela é visível até hoje. Pode-se ver as marcas de suas nádegas, de seus testículos, do caldeirão e do prato. A rocha não fica longe de onde o Missouri se junta ao Mississipi. Então, ele foi-se, primeiro penetrou no oceano e depois no céu. Agora, encontra-se debaixo da terra, tomando conta do mais inferior dos quatro mundos. A Bolha toma conta do segundo, a Tartaruga, do terceiro e a Lebre, do mundo no qual vivemos. Como conta à lenda dos Pés-Pretos em sua tradição oral.

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