O Senhor do Tempo Frio

Há muito tempo que as brisas frescas vinham prevenindo os gansos da chegada da estação fria e o constante “honc, honc” vindo de cima dava a entender aos índios que a migração das aves havia começado.

Os caçadores de búfalos Blackfoot, uma tribo algonquina, estava fora em busca de vestimentas e de carne que os manteriam quentes e lhes dariam abundância durante as desoladas luas do inverno. Lontra Sagrada tivera sorte. Tinha caçado bastantes búfalos e estava agora atarefado esfolando-os. Mas enquanto os guerreiros manuseavam as suas facas com destreza, não perceberam as nuvens negras que prenunciavam uma grande tempestade ao norte. De repente, as nuvens despencaram dos céus como um vôo de águias negras e, com um trovão, a nevasca estava em cima deles.

Lontra Sagrada e o seu filho abrigaram-se debaixo da carcaça de um búfalo morto para se protegerem. Mas o ar estava tão gelado, que ele sabia que deveria encontrar um outro abrigo melhor, se não quisessem morrer exposto ao vento. Por isso, construiu uma pequena tenda, com a pele de búfalo e ambos se recolheram dentro dela. A neve rapidamente começou a acumular-se em volta do abrigo, fazendo com que seus ocupantes dormissem cedo, devido a temperatura agradável no interior. Enquanto dormia, Lontra Sagrada sonhou. Lá longe ele viu uma grande tenda de cor dourada e pintado com um grupo de estrelas que representavam o norte. O círculo rubincundo do sol estava representado ao fundo e a ele estava fixada a cauda do Búfalo Sagrado. A parte inferior da tenda pintada de maneira a representar o gelo e do lado tinham sido desenhadas quatro patas amarelas com garras verdes, típicas do Pássaro Trovão. Um búfalo vermelho olhava com expressão carrancuda por cima da porta, enquanto molhos de penas de corvo com pequenos sinos atados, balançavam e ressoavam ao vento.

Lontra Sagrada, surpreso com a originalidade das pinturas, deixou-se ficar em frente a tenda admirando sua decoração, quando de repente uma voz pergunta:

“Quem esta aí fora? Entre, entre!”

Lontra Sagrada entrou e encontrou à sua frente um homem alto, de cabelo branco e usando uma túnica branca, sentado ao funda da tenda. Lontra Sagrada sentou-se, mas o dono da tenda nem seguer olhou na sua direção, fumando silenciosamente seu cachimbo. Diante dele estava um altar de barro, sobre o qual havia junípero tal como na Cerimônia do Sol. A sua cara estava pintada de amarelo com um risco vermelho na zona da boca e outro atravessando os olhos até às orelhas. No peito usava uma pele de marta e em volta da cintura tiras de pele de lontra, das quais pendiam alguns sinos. Durante muito tempo guardou silêncio, mas finalmente, pousou o seu cachimbo de pedra preta e dirigiu-se a Lontra Sagrada nos seguintes termos:

“Eu sou Es-tonea-pesta, o Senhor do Tempo Frio e esta é minha morada a Tenda da Neve, também conhecida como Abrigo da Pintura Amarela. Eu controlo e envio a neve e o vento cortante das terras do norte. Estás aqui porque me apiedei de você e do seu filho que contigo foi apanhado pela nevasca. Leva contigo esta tenda da neve com os seus símbolos e medicinas, e leve também esta bolsa da marta para tabaco, este cachimbo de pedra negra e o meu poder sobrenatural. Quando voltares ao teu acampamento terás de fazer uma tenda semelhante a esta.”

O Senhor do Tempo Frio explicou rapidamente a Lontra Sagrada os símbolos que ele teria de usar ao pintar a sua própria tenda e ensinou-lhe as canções e rituais necessários para o fazer. Nessa altura, Lontra Sagrada acordou e verificou que a tempestade tinha abrandado um pouco. Assim que lhes pareceu seguro, saíram do seu abrigo e começaram o caminho de volta a casa, com neve pela cintura. Lontra Sagrada passou muitas longas e frias noites a construir um modelo igual à tenda da neve e pintando-a tal como lhe tinha sido explicado no sonho. Recolheu também as plantas medicinais necessárias para a cerimônia e, na Primavera, quando novos abrigos foram feitos, ele construiu e pintou a tenda da neve.

O poder de Lontra Sagrada aumentou muito devido ao abrigo da neve cuja posse lhe fora concedida pelo Senhor do Frio durante seu sonho. Este poder rapidamente mostrou não ser apenas um sonho. Mas uma vez, enquanto caçava búfalos, Lontra Sagrada e alguns companheiros foram apanhados por uma nevasca a poucas milhas do acampamento. Perante a situação, pediram a Lontra Sagrada para utilizar a medicina do Senhor do Tempo Frio. Ordenando que as mulheres e crianças que os acompanham fossem postas em trenós e que os homens fossem na frente a abrir caminho na neve para os cavalos poderem passar, ele tirou o tabaco da sua bolsa de marta e cachimbo de pedra negra e começou a fumar. Soprou o fumo para o lugar de onde viera a tempestade e orou ao Senhor do Tempo Frio para que tivesse piedade daquelas pessoas. Gradualmente, as nuvens foram desaparecendo e em todo lado se via o azul do céu. As pessoas apressaram-se de volta para o acampamento pois sabiam que a nevasca tinha sido retida por pouco tempo. Mas o acampamento estava perto e eles chegaram são e salvos.

Porém, Lontra Sagrada nunca mais utilizou o seu poder místico, visto pensar que poderia ofender o Senhor do Tempo Frio

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