Origem do Mundo e da Humanidade

Segundo o povo Dessâna, que habita entre os rios Tiquié e Papuri, no Amazonas.

No princípio o mundo não existia. As trevas cobriam tudo. Enquanto não havia nada, apareceu a mulher por si mesma. Isso aconteceu no meio das trevas. Ela apareceu sustentando-se sobre o seu banco de quartzo branco.

Enquanto aparecia, ela cobriu-se com enfeites e fez como um quarto. Esse quarto chama-se “Uhtaboho taribu”, o quarto de quartzo branco. Ela se chamava Yebá Burô, a Avó do Mundo, ou Avó da Terra.

Havia coisas misteriosas para ela criar por si mesma. Havia seis coisas misteriosas: um banco de quartzo branco, uma forquilha para segurar o cigarro, uma cuia de ipadu, o suporte dessa cuia de ipadu, uma cuia de farinha de tapioca e o suporte dessa cuia. Sobre essas coisas misteriosas é que ela se transformou por si mesma. Por isso ela se chama “a Não Criada”. Foi ela que pensou o futuro mundo, sobre os futuros seres. Depois de ter aparecido, ela começou a pensar como deveria ser o mundo. No seu quarto de quartzo branco, ela comeu ipadu, fumou o cigarro e se pôs a pensar como deveria ser o mundo. Enquanto ela pensava no quarto de quartzo branco, começou a se levantar algo, como se fosse um balão, e em cima dele apareceu uma espécie de torre. Isso aconteceu com o seu pensamento. O balão, enquanto se levantava, envolveu a escuridão, de maneira que esta ficou dentro daquele. O balão era o mundo. Não havia ainda luz, só no quarto dela, no quarto de quartzo branco, havia luz. Tendo feito isso, ela chamou o balão Umukowií, “Maloca do Universo”.

Ela o chamou como se fosse uma grande maloca. Este é o nome mais mencionado nas cerimônias até hoje. Depois, ela pensou em colocar pessoas nessa grande maloca do universo. Voltou a mascar ipadu e a fumar cigarro. Todas essas coisas eram especiais, não eram feitas como as de hoje. Ela então tirou ipadu da boca e fez transformar em homens, os Avôs do Mundo. Eles eram trovões, eram chamados em conjunto “Uhtabohowerimahsã”, quer dizer, “homens de quartzo branco” porque eles são eternos, eles não são como nós. Isso ela fez no quarto de quartzo branco, onde ela apareceu. Em seguida, ela saudou os homens por ela criados, chamando-os “Umukosurã”, isto é, “irmãos do mundo”… Saudou-os como se fossem seus irmãos. Eles responderam chamando-a: Umukosurãnehko, isto é, “tataravó do mundo”, e quer dizer que ela era avó de todo ser que existe no mundo.

Feito isso, ela deu a cada um deles um quarto nessa grande maloca que é a Maloca do Mundo. Os trovões eram cinco. Nós os chamamos “Avôs do Mundo”. O primeiro, como primogênito, recebeu o quarto do chefe. O segundo, o quarto da direita, acima do primeiro. O terceiro, o quarto no alto do jirau do jabuti, no lugar onde se costumava guardar o casco de jabuti tocado nos dias especiais de dança. Assim também era na Maloca do Universo. O quarto trovão recebeu o quarto da esquerda, acima do primeiro e em frente ao segundo quarto. Por fim, o quinto, o quarto bem na entrada, perto da porta, onde dormem os hóspedes. Como disse antes, o mundo terminava em forma de torre. Na ponta da torre, ficava um sexto quarto, onde havia um morcego enorme, parecido com um grande gavião. O lugar onde ele estava chama-se Umusidoro (funil do alto) quer dizer “o Fim” (os confins) do Mundo. Cada um recebeu assim o seu quarto nessa grande Maloca do Universo. Esses mesmos quartos tornaram-se malocas, que se chamam Umukowi’iri, “Malocas do Universo”. Cada trovão ficou morando em sua própria maloca. Ainda não havia luz no mundo. Só nessas malocas havia luz, do mesmo modo que na maloca de Yebá Burô. No resto do mundo tudo ainda era escuridão.

Lenda extraída do livro “A Terra dos Mil Povos” de Kaká Werá Jecupé.

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