A Trilha Xamânica

 

Quando comecei meus estudos solitários sobre o xamanismo pedi que surgisse um mestre para me guiar. Depois de alguns dias passeando no Parque da Cidade em Brasília, recostei-me numa árvore e após alguns minutos comecei a indagar: Será que estou preparado para ter um guia? Estou pronto para trilhar o Sagrado Caminho do Xamanismo? Uma voz vinda de dentro falou que a minha caminhada seria infinitamente longa e que se escolhesse trilhá-la devia estar preparado para o pior. Poderia até encontrar um guia, mas este não iria estar comigo durante toda a minha jornada. Existiria a possibilidade de que eu me perdesse no caminho e quem sabe morresse antes de atingir a minha meta. A voz interior me alertou:

– Fique atento a cada passo dado e não se esqueça de se lembrar sempre do porque está ali. Pois bem, dito isso, agora você pode começar a sua jornada.

Durante a minha caminhada no xamanismo nem tudo foi um mar de rosas já que minhas condições internas não estavam preparadas para o que vi e por vezes me espantei. No Caminho, vemos algo especial o tempo todo. Descobri que o paraíso está dentro nós mesmos, e conquistá-lo é uma trilha única e especial para cada ser humano.

Dei sorte em encontrar verdadeiros mestres na minha jornada e de não ter encontrado charlatães, apesar de algumas pessoas acharem que estes são bons guias na sua caminhada. É comum no mundo globalizado em que vivemos existirem um sem números de “falsos” professores que levam indivíduos a percorrerem caminhos que parecem acessíveis no princípio, porém logo depois se tornam verdadeiros quebra-cabeças ou coisas bem piores. Essa via de contato com o mundo dito espiritual aumenta cada vez mais por causa da preguiça generalizada das pessoas. Preguiça produzida pela energia interna dos indivíduos e de seu costume mercantilista do “pago e obtenho”. Mas o que irão conseguir no mundo espiritual por meio de um pagamento?

O que verdadeiramente buscamos? Grandes feitos a realizar por um ser humano verdadeiro num mundo de verdades.

O mundo está desumanizado. O que será de nossas selvas e oceanos no futuro? E do homem? Os indivíduos desta humanidade crêem ser humanos porque tem pensamentos e atitudes humanas, porém o que acontece com a experiência de ser humano? E aí? Quem somos? Ao ver o mundo sendo destruído por nós, só posso dizer que somos o que temos… será que teremos algo no futuro? As profecias ancestrais nos dão esperanças de um futuro melhor, mas para que ele exista temos que ser conscientes de que somos filhos da Terra e devemos preservá-la.

Durante todos estes anos de caminhada percebi que o mundo está em transformação. Na verdade sempre esteve, mas desta vez Pachamama manda suas vibrações a todos os corações, para que despertem e ajam. Aqueles que têm a marca do Espírito no coração e na consciência devem se tornar disponíveis ao chamado da Mãe Terra, ver com os olhos de “ver” e ouvir com ouvidos de “ouvir”. Creio que este seja mais um chamado ao despertar do guerreiro dentro de cada um no “Aqui e Agora”. Devemos cultivar o sentimento do chamado que brotou dentro de nós, e nos transformarmos em mais um indivíduo que pode fazer toda a diferença.

O xamanismo é um caminho, embora a rigor, sua definição possa se resumir a um “conjunto de técnicas que levam ao êxtase”, o que não o torna exatamente uma estrada, mas há algumas abordagens onde se mapeiam os estados evolutivos e a forma de espiralar ascendentemente, sempre retornando ao mesmo ponto de onde se partiu, porém numa “oitava” perceptiva superior, e é por isso que me considero um andarilho da senda xamânica e não um Xamã pleno, pois para sê-lo ainda tenho muito a caminhar.

A função dos Xamãs nos dias de hoje é a de ressacralizar a natureza no seio da consciência humana. Os seres humanos, com suas construções e forma de vida, tomaram espaço da Mãe Natureza. Os Xamãs têm a missão de devolver à Pachamama o que é dela, sua plenitude. Para isso trazemos em nossos corações marcas que afloram e se descortinam no momento adequado, nos conduzindo a tomar ações combativas a ignorância e ao descaso, por meio de histórias a serem contadas na intimidade das fogueiras, curas com a simplicidade da palma das mãos, das ervas, sons, sopros, tambores, pensamentos, intento e palavras, poesias e artes que tocam as essências dos seres com a Essência do Ser… Somos mensageiros do Céu e da Terra, e nosso trabalho é uni-los dentro de nós mesmos e alquimizar ambas as forças na fornalha alquímica que é nosso coração, derramando a força Telúrica e Etérea com nossos olhares pelos quatro cantos do mundo.

Ao redor da fogueira, quando da iniciação com meus irmãos de clã, assumimos o compromisso de levar tais forças, da melhor maneira possível, para todos e tudo aquilo que encontrarmos, às vezes, utilizando como argumento apenas o silêncio. Outras, fazendo bastante barulho. Viemos para dançar com todos os minerais, vegetais e animais, e assim, declarar amor, fraternidade e cooperação entre todos os seres. Reconhecendo que nós, humanos, em nada somos superiores a nenhum outro ser, somos apenas mais uma peça no grande jogo da criação e devemos oferecer respeito e gentileza a tudo o que vive, sejam animais, plantas ou pedras. Na caminhada cada um encontra sua missão, ou é por ela encontrado, mas para isso há que se caminhar, logo, há que se ser um andarilho.

A aprendizagem se caracteriza pela dureza e a dificuldade em todos os níveis. Gostemos ou não, o sofrimento é uma premissa comum para nos liberarmos.

Nos Andes aprendi que realizando a jornada do Oeste e enfrentando o jaguar em sua vida, o guerreiro espiritual não apenas se liberta para viver integralmente o presente, mas sabe que caminho tomar quando a morte vier, e ela também o reconhecerá. Isso significa morrer com consciência, de olhos abertos. É a maneira de deixar este mundo vivo.

Certa vez Mama Julia me disse:

– O Jaguar é um guerreiro. Ele tem equilíbrio. Tem um propósito. O Runauturuncu, o Homem-Jaguar, tem essas mesmas qualidades em sua busca espiritual em todos os mundos e suas realidades. Um Jaguar potencial vive em cada pessoa. Ele caminha sozinho, parte da sua jornada espiritual é solitária. Wagner, só você pode transmutar as energias pesadas de dentro de você. O grande ensinamento do Jaguar é que ele um animal com o mínimo de ego, e nunca procura ser visto. Desperte!

Na minha caminhada descobri que todos têm seus desafios, e só quem os enfrenta sabe o quanto são limitantes ou estimulantes.

O xamanismo é um caminho árduo, mas não da forma como se usa tal palavra no cotidiano, ele é penoso por que ardemos com o fogo interior desperto pela fricção do Céu e da Terra dentro de nós. Para um andarilho não há difícil ou fácil, há apenas desafios que são enfrentados com muita alegria, se o caminho for “sofrido” não há coração nele, e é melhor que este seja abandonado rapidamente.

Na filosofia xamânica a coisa mais importante é a nossa relação com as manifestações da força da natureza e nossa comunhão com tudo aquilo que nos cerca visando nossa jornada rumo a Liberdade Total, ao salto quântico no qual nos tornaremos um Homo Luminus. É por isso que caminho. Essa busca me fascina e sustenta.

As raizes da maior parte dos problemas em nosso planeta podem ser atribuídas aos homens e mulheres. É na verdade um assunto que tem sua origem na mesma configuração de nossa mente. Ela geralmente nos faz duvidar e sentir medo. Já a natureza é perfeita em si, nos dá medo e nos ensina a construir um mundo possível e melhor. Às vezes penso que a origem de nossa mente é extraterrena. Nossa mente é diferente da de todos os animais. De onde veio a nossa mente? Não encontro elementos de que o simples fato de termos sobrevivido neste planeta fez com que desenvolvêssemos uma mente tão complexa, anos-luz de distância da evolução atual das demais espécies.

Em síntese todos os ensinamentos de autoconhecimento nos dirigem a um único fim, o do respeito e amor entre todos os seres. Um Xamã tem que cuidar-se para não se viciar em somente curar, ele tem que saber o momento preciso de atuar. A enfermidade é um transtorno causado pela natureza, que não tem origem causal, mas é definitivamente causado pelas atitudes do indivíduo. Isso funciona no homem, tal como uma purificação que visa aumentar a consciência sobre uma determinada área de sua vida. O paciente deve conquistar essa consciência antes de ser curado, caso contrário, terá sido inútil ter ficado doente.

Como um andarilho do Caminho Xamânico, sou um ser manipulador da energia e da ordem espiritual, que o faz desde uma perspectiva responsável. Essa responsabilidade tem uma magnitude, tal como a de ser responsável consigo mesmo, com a minha família, comunidade e com a humanidade como um todo. A responsabilidade tem sua raiz na intenção. Sempre busco agir com intenção amorosa e respeitosa. Para tudo isso tenho que possuir uma consciência ampla e bastante energia.

Ser e agir como um Xamã não é privilégio de povos nativos, mas do desenvolvimento humano. O amor, o respeito, a energia e a intenção são determinantes para que isso ocorra. O amor é a pedra angular da vida e da consciência. É a chave que abre todas as portas. A morte é nossa melhor amiga e nos recorda continuamente que estamos vivos. Na minha caminhada aprendi que a vida se alimenta de ilusão e a morte da verdade. 

Munay,

Wagner

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