Comercialização da Ayahuasca

Napaykuna!

Estou aqui mais uma vez para falar do turismo xamânico que ilude o cidadão, com promessas de acesso imediato e sem esforço ao mundo espiritual que está submerso na escuridão do inconsciente coletivo, utilizando para tal as Plantas consideradas Mestras pelos xamãs.

Cada vez mais nos últimos anos, turistas viajam para a Amazônia brasileira, colombiana, equatoriana e peruana para conhecer a ayahuasca (vinho da alma ou o vinho dos mortos), uma bebida utilizada pelos xamãs ancestralmente, mas que foi popularizada como uma experiência alucinógena capaz de mudar a vida das pessoas — um barato sem comparação. Feito da mistura de um cipó (Banisteriopsis caapi) com folhas de chacrona (Psychotria viridis), um arbusto encontrado no coração da Floresta Amazônica, o chá se tornou a “droga” favorita de celebridades como Lindsay Lohan, Olívia Newton-John, Paul Simon, Sting, Tori Amos, entre tantos outros defensores ferrenhos de suas propriedades espirituais. Mas, para as tribos amazônicas que utilizam a ayahuasca há 5.000 anos como forma de se comunicar com o Mundo dos Espíritos e conseguir respostas sobre temas que vão da política à medicina, a nova moda é um perigo.

É incrível o número de cartazes que encontramos no Peru nas cidades do Vale Sagrado dos Inkas (Cusco, Ollantaytambo, Pisac, Urubamba e Calca) procurando atrair os gringos para participarem de “rituais” com esta bebida. Alguns buscam o seu despertar espiritual ou serem curados de doenças e vícios crônicos. Outros a experimentam para se recuperar de um luto debilitante, para combater ansiedade, ou apenas para chapar com o santo graal dos psicotrópicos. E visando atender tal demanda, centenas de retiros de ayahuasca brotaram no território amazônico, do Peru ao Brasil.

Porém, nem todos os povos da Amazônia estão felizes com a ascensão do turismo em torno da ayahuasca, que termina por mudar essa região. Tem mais de uma década que trabalhamos com turismo levando grupos aos andes peruanos para conhecer a medicina nativa dos povos originários andinos, mas apesar do interesse do nosso público alvo, tomamos a decisão de não oferecer retiros de ayahuasca. Não oferecemos esse tipo de pacote porque respeitamos esses povos, seus costumes, tradições, e acreditamos que há prática ritualística no mundo todo precisam ser compreendidos e respeitados. Não somos hipócritas ao dizer que a bebida não deve ser experimentada e que nunca participamos de um ritual com ela, pelo contrário, acreditamos no “conhecimento” que ela tem a nos ofertar, porém o que alertamos aqui é sobre o comércio desenfreado ao redor desta bebida sagrada xamânica. Infelizmente inúmeros retiros de ayahuasca estão sendo abertos por estrangeiros e nativos, que na maioria das vezes administram a bebida potente para os turistas sem as precauções necessárias em relação a segurança de seus usuários ou respeito pela sacralidade do chá.

Outro fator que temos observado com a popularização da ayahuasca, é o surgimento de pseudo-xamãs que repetem a forma sem entender o conteúdo, que imitam fórmulas sem operar com a verdadeira essência do que é acessível. Isso significa que os rituais com essa bebida obviamente perderam alguns de seus poderes originais, e que geralmente as cerimônias são adaptadas para estrangeiros que estão dispostos a pagar caro por uma cerimônia mequetrefe que trai a autenticidade cultural dos povos amazônicos. Outros povos nativos cuja cultura não incluía originalmente a ayahuasca, estão adotando essa tradição como uma maneira de ganhar dinheiro. E cada vez mais essa apropriação nativa se espalha para outras cidades como Cusco, uma das mecas da ayahuasca, sendo que esse ritual era realizado antes somente na selva. Mas como podemos verificar, os indivíduos fazem tudo por dinheiro.

Felizmente esse tipo de turismo também tem o seu lado bom, apesar de não concordarmos com esse tipo de comercialização notamos que está ocorrendo uma espécie de renascimento cultural, com os jovens nativos sendo despertados pelo interesse a tradição ancestral e que estava sendo esquecida. Outro detalhe é o crescimento econômico numa das regiões mais pobres do mundo, que estão reconstruindo suas economias com esse turismo. Mas isso não significa que todo nativo amazônico está qualificado e tem boas intenções, como também nem todo gringo realiza este tipo de empreendimento para ter lucro. Acreditamos que sendo a ayahuasca um patrimônio cultural dos povos da Amazônia, os governos deveriam repassar boa parte deste lucro para as comunidades onde essas práticas se originaram, e que continuam a viver na pobreza e sob risco de uma série de problemas ambientais e sociais.

Apesar de suas propriedades espirituais e terapêuticas, a popularidade mundial da ayahuasca corre o risco de acabar (no nosso modo de ver) com essa tradição ancestral. Esse ritual xamânico, infelizmente se transformou em entretenimento, chegando a levar a morte (por overdose ou reação alérgica) uma série de turistas incautos. É comum, nas raves, encontramos jovens bebendo ayahuasca junto com ecstasi e outras drogas sintéticas. Além disso, hoje é possível comprar a bebida ancestral pela internet com apenas alguns cliques. Neste caso, surge uma outra questão: e o controle de qualidade da ayahuasca? Alertamos, que o chá preparado de forma incorreta ou misturado com algum outro tipo de droga pode ser fatal.

Devido a crescente demanda regional e internacional, o cípo (Banisteriopsis caapi) está em extinção em algumas regiões da Colômbia e Peru, o que fez com que a bebida tivesse seu preço triplicado, chegando hoje (maio de 2017) a US$ 300,00 (trezentos dólares) por litro. O caapi só cresce no meio da floresta e demora em torno de quatro anos para chegar a fase madura, deixando sua matéria-prima limitada. Alguns retiros de ayahuasca espalhados pelo mundo, chegam a cobrar US$ 400,00 (quatrocentos dólares) por sessão. A comercialização do chá é uma realidade, mas defendemos que exista um controle governamental para que essa bebida não seja banalizada e quiçá proibida aos seus verdadeiros “donos”… o povo da floresta, que devem exigir parte dos lucros. Acreditamos que a extração do cipó deva ser regulamentada, pois hoje produtores amadores de ayahuasca cortam um pedaço do cipó e deixam o resto apodrecer; ou seja; a medicina da floresta definhar.

Existe inclusive, empresas farmacêuticas querendo patentear a ayahuasca. Acreditamos que devidamente estudada, essa Planta Mestra pode auxiliar milhões de pessoas, tal como está comprovado hoje em dia com a cannabis. Todos devem estar espertos e com olhos abertos. Tem uma frase de Paracelso que diz “a diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem”, o mesmo podemos dizer em relação a dose do chá. Aqueles que queiram participar de um ritual com essa bebida sagrada ancestral, devem pesquisar até encontrar xamãs autênticos que conduzem esse rito de forma certa. Há xamãs que conduzem essas cerimônias sem nenhum conhecimento e enganam aqueles incautos que estão buscando ajuda. Existem relatos de xamãs que assediam mulheres e as estrupam durante uma sessão de ayahuasca. Muitos têm a cara de pau de dizer que é uma vingança cultural, pois os invasores brancos fizeram isso com suas mulheres anteriormente. Ao nosso ver, isso não é uma desculpa e como xamã (e ser humano) esse fato não deve ocorrer nunca. Xamãs, acima de tudo, devem ter RESPEITO pela Mamantuá (Mãe Terra) e todos os seres que vivem sobre ela… principalmente a mulher que é sua companheira na Jornada pela Vida.

Antes de finalizarmos, gostaríamos de esclarecer que Xamanismo não é “chámanismo” e que o “Cháman” (Homem do Chá… kkk) não é um Xamã, apesar deste último poder ser um ayahuasquero, e saber respeitar e ter o conhecimento da tradição ancestral desta bebida que é considerada sagrada pelos povos originários amazônicos.

Munay,

Wagner Frota

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