Deturpação do Sagrado Feminino Andino

 

Napaykuna!

No decorrer das últimas décadas, temos observado o ressurgimento do Sagrado Feminino com força total.
Porém, infelizmente esse movimento veio acompanhado de uma série de fatores que em vez de ajudar, termina atrapalhando o esforço de pessoas sérias que trabalham com o resgate ancestral do Sagrado Feminino.
Vejo surgir inúmeras atividades ligado a este tema, que virou modismo com a desculpa de empoderar as mulheres, despertando assim o seu Poder Pessoal.
Dois destes fatores mencionados dizem ser praticados pelas nativas peruanas. Por ser um estudioso profundo dos povos andinos, recebo uma série de e-mails querendo saber sobre dois ritos que dizem ser praticados pela etnia Q’ero, entre eles: o Rito do Útero e o Ñusta Karpay.
O primeiro deles que é conhecido como o décimo rito do Munay-ki ou identificado como décimo terceiro (apesar de não existir um décimo primeiro e muito menos um décimo segundo), na verdade é uma cerimônia que é divulgada como se fosse dos Q’eros, porém é uma cópia da Cerimônia de Benzimento (Benção) do Útero do povo Shipibo, onde as parteiras realizam uma série de banhos de vapor na lua cheia. Na cerimônia em si, as mulheres vestem vestidos ou saias e fazem com elas uma espécie de cabana, e a curandeira xamã apanha uma braseiro com carvão e ervas pondo debaixo da saia por alguns minutos enquanto reza sobre a cabeça da mulher que está sendo abençoada. Depois a xamã conduz a mulher ao rio, onde as banham e esfregam flores pelos seus centros energéticos. Essa cerimônia tem como finalidade despertar aspectos do feminino dentro das mulheres que se encontravam adormecidos e fortalecendo sua feminilidade.
Abro um parênteses aqui, antes de falar sobre o nomeado Ñusta Karpay, para esclarecer que o que chamam de Ritos do Munay-ki é uma adaptação dos ritos dos Q’eros misturando elementos do Budismo Tibetano para criar o tal do Munay-ki, sendo Munay uma palavra em runasimi que significa amor e ki que é força em mandarim.
É difícil definir quais são os verdadeiros ritos iniciáticos dos Q’eros, pois desde que eles surgiram para o Ocidente muitos antropólogos passaram a estudar e adaptar a Medicina Nativa, criando uma série de ritos que não são os originais deste povo.

Infelizmente, a etnia Q’ero foi e continua  sendo explorada por pessoas de má índole que prefiro não nomear neste artigo.
No meu modo de ver, a apropriação cultural e deturpação dos ritos dos povos originários são uma vergonha para o meio Xamânico. Além deles explorarem os nativos sem darem um apoio financeiro em troca dos conhecimentos que estes passaram a eles de coração aberto.
Nos últimos anos também surgiu uma nova iniciação que os ocidentais deram o nome Ñusta Karpay (Iniciação da Princesa). No caso, descobri que é outra invenção ocidental, mas que muitos dos nativos agora tomaram para si pois com ela têm oportunidade de ganhar mais dinheiro dos turistas incautos ou não.
Como a questão do Feminino está em alta globalmente, e já existia o Hatun Karpay (Iniciação Maior ou do Senhor, em runasimi); ou seja; como tem uma iniciação que agora dizem ser Masculina, inventaram essa nova Feminina para despertar a energia feminina dentro de cada ser. Sendo que o Gran Karpay (prefiro esse termo do que Hatun Karpay) faz exatamente a união do masculino e feminino dentro de cada ser. Cada dia fico mais entristecido com essas invenções e deturpações para certas pessoas ganharem grana.
A título de informação, antes de finalizar esse artigo, gostaria de falar um pouco sobre uma cerimônia que é realizada exclusivamente por mulheres da etnia Q’ero. Chaku é uma prática ancestral (realizada nos meses de fevereiro e setembro) em que as parteiras mais antigas da comunidade cercam e caçam uma alpaca, lhama ou vicunha. O objetivo desta cerimônia é que as jovens solteiras possam ser férteis. Esse processo, segundo a crença dos Q’eros, se dá quando ao matarem o animal, as jovens encarnam a alma do camelídeo e passam a serem férteis como os animais e a Pachamama. Aquelas mulheres que pretendem trabalhar como curandeiras, nesta cerimônia invocam a Mãe Terra e as energias femininas das montanhas e da água, para que possam trilhar o Caminho da Sabedoria com amor e compaixão no Coração. Acredito que devido a apropriação cultural desta última cerimônia, foi que criaram o tal do Ñusta Karpay.
É triste ver que além disso, as apropriações e invenções estão sendo apoderadas e recriadas por terceiros. Isto é péssimo, pois deslegitima o que é feito com seriedade. Há uma prepotência nisso tudo, pois o povo não consegue trabalhar com o simples, com a verdade das coisas e começa a inventar ritos, tradições, títulos, etc.
Tudo isso termina por ser de uma irresponsabilidade tremenda.
Lembro a todos de uma frase que certa vez ouvi a Mirella Faur dizer que a “redenção do Sagrado Feminino diz respeito tanto ao homem como a mulher”. Por essa razão, todos nós devemos resgatar a conexão que temos com a Pachamama, nossa Mãe Terra, e lembrar que somos responsáveis de cuidar do seu equilíbrio e preservação.

Munay,

Wagner Frota

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