Divagações de um “Sonhador”

Que seria do homem sem os seus sonhos, suas fantasias? Que seria dele sem a liberdade de pensar, sem os grilhões que a ciência e a tecnologia criam para cecear-lhe a imaginação Que seria dele sem as asas do espírito, que o levam a mundos desconhecidos, sem as restrições impostas pelo tempo e pelo espaço.

A razão sem dúvida impulsionou o desenvolvimento do Homo sapiens como não o fez com nenhuma outra espécie. A alma, entretanto, cuja existência jamais foi comprovada, que jamais foi exposta à ação de um bisturi, abre-lhe o caminho para uma Quarta Dimensão. Mais que todos os conhecimentos, foram sempre o mistério, o inexplicável, o oculto, enfim, que com mais empenho o puseram em movimento, e conquistaram sua razão.

O raio e o trovão foram degradados por nós a meras fórmulas físicas; acompanhamos pela telinha da televisão a vida de microorganismos e, com os radiotelescópios, testemunhamos o nascimento ou a morte de uma estrela ocorridos a milhões de anos, mas que só chega até nós; o atraso se deve ao tempo que a luz leva para percorrer essas distância gigantescas. E como a estrutura básica do Universo – o Caos – é inquietante para nós, tentamos sistematizá-lo, categorizá-lo, numa tentativa de compreender o inconcebível. Enquanto isso, o estado e o desenvolvimento do mundo que nos cerca mais de perto, o nosso próprio planeta, coloca-nos no mesmo dilema.

Mas no nosso inconsciente existe um mecanismo de defesa; ele procura proteção diante da onipresente falta de saídas através de uma civilização que engendra a si mesma e é ao mesmo tempo quase suicida. Sentimos a necessidade de uma volta urgente às raízes do nosso ser, aos nossos sonhos e fantasias mais remotos, livres de quaisquer injunções impostas pelas assim chamadas conquistas do progresso.

Em nossa vida “moderna”, o perigo espreita em muitos dos progressos mascarados como “desenvolvimento” que já escaparam ao nosso controle. Seria um milagre caso a indústria global da mídia e da propaganda não tivessem percebido as possibilidades que daí resultam. Ela mais e mais usa correntes do nosso inconsciente para influenciar-nos no sentido desejado, para manipular-nos. Nenhum truque psicológico é baixo demais, mesquinho demais, para sugerir às pessoas desejos e cobiça, e até mesmo opiniões e convicções, chegando à disposição para sacrificar a própria vida, para daí tirar vantagens.

Enquanto, num passado remoto, feiticeiros e fundadores de seitas já usavam métodos de sugestão para rebaixar os homens a dóceis instrumentos e, assim, garantir a própria influência, enquanto mais tarde príncipes, autoridades eclesiásticas e políticos seguiram seus passos, hoje imperam os sedutores secretos, membros das diretorias e dos conselhos de gigantescos conglomerados empresariais: o mercado mundial precisa de um homem padronizado e fácil de atender, o cliente internacional ideal de caráter universal. Nós quase somos levados a crer que os gerentes dessas empresas são membros de uma comunidade de crença, cujo postulado se expressa no seguinte lema: “Ganhe dinheiro – ganhe mais dinheiro”.

Poucas são as vítimas que ainda estão em condições de descobrir as manipulações. Seu veneno é inoculado até nos recantos, nichos e culturas mais intactos de nosso planeta, que de maneira insidiosa e incessante vai destruindo a variedade humana e apoderando-se de seus sonhos e desejos. É dessa maneira que se tenta chegar à alma. Para eles isso é fácil. Seu único oponente é a natureza, que atualmente perde uma batalha após outra. Para recuperar o terreno perdido, ela se disfarça, se esconde atrás de fachadas artificiais, muda de rosto e tem assim todo tempo do mundo. O que um dia começou no caldo primordial não pode ser vencido ou eliminado nem mesmo pela “coroa da criação”. Isso está sempre presente – onipresente – também dentro de nós, como uma loba ou um urso. Nós usamos a loba ou o urso como pele por baixo do vestido de noite ou do smoking. O que fazemos ou aonde vamos, não importa: uma sombra de quatro patas sempre nos acompanha…

Klaus Sonnefeld “Weisse Rabe”

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