Folhas de Coca: Alimento para o corpo, o espírito e o coração

Achados arqueológicos mostram vestígios de uso das folhas de coca (Erythroxylon Coca) há 2 mil anos a.C. Como diziam e dizem os cronistas da história andina, tudo se fazia e se faz com a folha de coca, desde a hora em que acordam até a hora em que dormem. Milhares de andinos elevam ao alto suas folhas de coca, seus pensamentos e sua devoção todos os dias, buscando a reciprocidade com aquela que nos dá o dom da vida, a Mãe Terra Pachamama.

O ato de mascar coca se chama picchar, e a llipt’a é como uma pasta de cor escura, feita com cinza de plantas como a kañiwa (Chenopodium pallidicaule aellen), planta do altiplano boliviano e peruano, que usada junto com as folhas da coca extrai melhor suas propriedades nutrientes e curativas. A coca, uma folha de cor verde oliva, às vezes amarga, às vezes doce, para os andinos não é considerada “droga”, no sentido pejorativo de dano e degeneração que conhecemos, pois para eles “droga” é o que o homem produziu com suas próprias mãos para outros fins usando uma dádiva curativa da Mãe Terra. Houve-se falar da maldição inca, de que quando o homem branco fizesse mal uso da planta sagrada, ela o destruiria, e eis que aí temos a cocaína, alterada quimicamente, destruindo muitas vidas.

Os efeitos medicinais da folha da coca são como de um estimulante, além de melhorar o metabolismo, a orxigenação do sangue, a freqüência respiratória, o mal de altura (mal de puna ou soroche), diarréias, dores de cabeça, anemias, tirar a fome e ajudar em problemas estomacais. Por ser estimulante e revigorante, as folhas de coca são mastigadas pelos camponeses com o propósito de recarga das energias no duro trabalho empreendido nos campos e nas grandes altitudes. A composição da folha de coca contém fósforo, ferro, cálcio, proteínas, carboidratos, vitaminas como: A, B1, B2 e C.

Os Paqos, sacerdotes andinos, usam uma chuspa, uma bolsinha de tecido ou de pele de lhama para carregar as folhas de coca. Fazem adivinhação através das folhas e também oferendas importantes para retribuir à Pachamama o dom da vida e seu sustento que vem da terra. A principal oferenda ritual chama-se k’intu que compreende três folhas de coca (ou seis ou nove, ou mais, múltiplos de três), sendo que a maior folha é dedicada aos Apus, espíritos da natureza protetores representados nas montanhas e picos andinos. Os Apus (que em quéchua significa “Senhores”) são respeitados e invocados nos rituais. Entre eles estão: Apu Salcantay, Apu Ausangate, Apu Willkamayu, Apu Sawasiray, Verônica, Putukusi, Machu Picchu, Huayna Picchu, entre outros. A segunda folha, mediana, é dedicada à Pachamama, Mãe Terra, nutridora, provedora da vida. E a terceira folha, de menor tamanho, representa a humanidade. Essas folhas são consagradas com um pequeno sopro ou com o hálito, que significa o sopro de vida que todos temos dentro de nós. Junta-se também as folhas a oferendas que contém tabaco, cigarros, bebidas, doces, chamadas por alguns de “pagos” ou “despachos”.

As folhas de coca também podem ser usadas para troca, para retribuir serviços, ou como sinal de amizade e partilha. É interessante observar, para quem já teve a oportunidade, as relações interpessoais que se estabelecem através do ato de compartilhar a coca para a mastigação. Esse ato chama-se hallpay. Marcou-me muito certa vez que tive a oportunidade de compartilhar com uma senhora campesina. Eu estava em Q’enqo, numa tarde fria e ensolarada, lendo, meditando, admirando a paisagem natural e humana, quando passa por mim há alguns metros uma senhora campesina com seus animais. Ela acomodou-se entre as pedras para descansar. Eu estava encantada com as pequenas ovelhas e me aproximei oferecendo à senhora algumas folhas de coca. Por um momento compartilhamos em silêncio enquanto mascávamos a coca, mas esse ato silencioso foi suficiente para que conectássemos a nossa energia de algum modo. Depois conversamos sobre os animais e ela agradeceu as folhas. Essa é uma situação simples, mas um simples ato de compartilhar nos aproximou. Em cada lugar que vamos é muito bonito o ato de oferecermos e compartilharmos a coca, é partilhar algo sagrado, pois a coca é um brinde à vida, um grande presente da Mãe Natureza àquele povo humilde, mas com tanta sabedoria.

Há uma energia muito forte de identidade entre os povos andinos através das folhas de coca e é impossível dissociar um do outro. Entender o que representa a coca e seus usos, é compreender o legado ancestral, é compreender a essência desses povos que habitaram e habitam o altiplano boliviano e peruano, bem como as grandes altitudes. A conexão do povo andino com seus protetores e com a Mãe Terra é a essência de sua cosmovisão.

Tatiana Meurer (Menkaiká)

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