Hasta Pronto Thálya!

Seus olhos negros que sempre brilhavam ao me olhar, não serão mais vistos organicamente, porém sei que sempre nos veremos no astral, onde poderei tê-la ao meu lado, amenizando a dor que carrego comigo.

Cá estou, pintado de negro, homenageando minha pequena grande companheira estelar. Aquela que como uma Nuvem Passageira, passou por mim deixando marcas profundas no meu Ser.

Meu Amor lembro-me da última vez que olhei para suas pérolas negras em suas órbitas oculares, presenciando sua luta para manter-se viva e trazer nosso pequeno Balam a esta encardenação.

Seus olhos brilhavam intensamente lutando para manter-se viva. Seu corpo luminoso estava radiante a minha frente, porém desvencilhava-se do corpo orgânico. Alex que há muito havia deixado seu Shabono, estava ao nosso lado juntamente com a parteira e Pai Legba. Um vento apagou uma das tochas que iluminavam nossa cabana. Vendo os sinais, Pai Legba pediu para que Alex apaga-se todas as outras. A fumaça invadiu nossa cabana pairando no ar, enquanto Pai Legba colocava a sua mão direita sobre seu ventre ensangüentado, e num movimento de varredura ele dirigiu-se até seus pequenos pés. Sua mão parou no ar, a certa distância, e passou a sacudir os dedos, como se quisesse secar a mão molhada. Por cinco vezes esfregou a perna direita de Thálya e sacudiu os dedos. Depois repetiu o procedimento na esquerda.

Aproximei-me de Thálya e escutei sua respiração fraca. A vi esboçar um sorriso como se quisesse me passar confiança, mas eu sabia que havia chegado o momento de ela deixar cair o xale. Apertei sua mão com suavidade enquanto observava Pai Legba passar sua mão acima da virilha da minha amada. Com sua mão direita e seus dedos esticados, principiou a fazer movimentos circulares no sentido anti-horário. Continuando num movimento espiralado por três vezes, afastou a mão saindo do primeiro vórtice energético e repetiu o gesto no segundo vórtice. Em seguida dirigiu-se ao plexo solar, o coração, a base da garganta, ao terceiro olho, e finalmente ao topo da cabeça.

Quando Pai Legba terminou, permaneci segurando a mão que já não pulsava entre as minhas. Olhei para os belos olhos da Thálya e vi que eles haviam perdido o foco, apresentando uma mudança quase imperceptível na direção das pupilas, e depois um vazio glacial…

Senti Alex apertando um ponto entre as minhas omoplatas e fazendo sinal para eu olhar. Olhei para seus seios volumosos que delicadamente subia e descia. Passado um lapso de segundo havia alguma coisa leitosa e translúcida na superfície do corpo de Thálya, uns 3 cm acima do contorno de sua silhueta. Desaparecendo em seguida.

Pai Legba pediu para que eu me posiciona-se atrás da cabeça de Thálya e me deu uma pequena pancada com a articulação de seus dedos na minha testa.

Lá estava. Desfocado, mais nitidamente visível um brilho sutil que pairava a 10 cm acima da pele de Thálya, como se um clone luminoso estivesse emergindo do seu corpo. Controlando minha respiração, pude ver nitidamente a essência da minha amada, seu Corpo Luminoso. Debrucei-me sobre seu rosto beijando seus lábios ainda róseos e comecei a cantarolar nossa canção. Seu peito arqueou, e com grande esforço ela inspirou, retendo o ar em seus pulmões.

- Exala meu Amor.

Então ela suspirou profundamente, como se seu último alento estivesse abrindo passagem pelo seu peito para sair pela sua boca entreaberta.

Subitamente enxerguei com a minha visão periférica a luz leitosa erguer-se e fundir-se com uma substância amorfa, como uma opala, flutuando a 30 cm acima do seu peito. Pai Legba pediu que eu batesse bruscamente com as minhas mãos no esterno dela como se tenta-se ressuscita-la, em seguida na garganta, na cabeça e, repentinamente a luz desapareceu por completo.

Deixando as minhas lágrimas rolarem suavemente pela minha face, contemplei o rosto recém-beijado pela morte, que marcava sua presença guerreira, na suavidade de seu rosto e na rigidez da absoluta imobilidade. Beijei pela última vez aqueles lábios, para em seguida banhar a minha amada e vesti-la com seu poncho cor de laranja.

Após lavar Balam com água de rosas, a parteira aproximou-se com nosso pequeno rebento inerte em seus braços e me entregou. Beijei a face do meu filho e acomodei-o em cima dos peitos de Thálya, para em seguida envolve-los numa mortalha de linho rústico.

Ao sair da cabana, carregando-os em meus braços, respirei o ar quente da noite. O céu estava límpido. As estrelas brilhavam, e ao olhar o Atlântico, pude ver a pira funerária que Alex e Pai Legba haviam construído atendendo o último pedido de Thálya. Com ajuda dos meus irmãos, depositei os corpos sobre a pira embebida em líquido inflamável.

Alex me entregou um tocha, que joguei na base da pira funerária. Em questão de segundos, o irmão fogo envolveu minha família amada. Uma meia lua surgiu no céu claro. Nenhuma brisa perturbava o plácido fogo. Continuei de pé, numa postura ereta, descalço e sem camisa. Carregava em minha em minhas mãos uma caixa de acrílico transparente, onde Thálya mantinha suas tarântulas e viúvas negras. Abri a portinhola da caixa e libertei as aranhas que correram em disparada em direção ao fogo, sucumbindo no meio das chamas.

Uma pequena tarântula subiu pela minha perna direita e posicionou-se no meu ombro. Absorto, olho o fogo, enquanto Alex e Pai Legba cantam aos espíritos da água, do ar, do fogo e da terra, chamando os espíritos dos lagos, lagoas, das florestas, das montanhas e dos animais.

Sem controle dos meus movimentos começo a dançar. Sinto minha glote se fechar involuntariamente, uma sensação toma conta de mim arrebatando-me num instante. Todo meu corpo treme. A aranha me pica e corre em direção ao fogo para juntar-se as suas irmãs. A angústia e raiva brotam e explodem num grito. Caio de joelhos. Vejo as forças se reunirem a minha volta, vejo a figura do Jaguar, a minha própria figura, andando em círculos, protegendo-me de mim mesmo.

Sinto o fogo me envolver num abraço. Pulo sobre a pira incandescente, cruzando de leste a oeste. Esfrego as minhas mãos sobre o fogo, purificando-me em suas chamas. Descalço danço sobre as brasas incandescente que caem da pira, suplantando as chamas que haviam expulsos as trevas que escoavam pelos meus poros com a minha perda. Permaneço parado, fitando a areia e meus pés escurecidos.

Thálya Iktomi sai dos meio das chamas com nosso filho em seus braços e me diz para que eu me deixe amar, que o poder e a magia não são nem brancas ou negras, boas ou más, mas apenas uma questão de propósitos e manifestações. Apanhando de uma espada etérea, Thálya a faz deslizar pelo meu corpo cortando fora as conexões com fatos passados. Ela pede que eu permaneça asceta por mais algum tempo, para que eu me energize, e deixe em paz os espíritos das mulheres da minha vida, para que não necessita-se buscar relacionamentos semelhantes e livrar-me dos antigos envolvimentos. Olhando dentro dos meus olhos inchados pelo choro, Thálya me diz que voltaremos a nos encontrar outra vez e que juntos voltaremos a ser uma única Estrela.

Nos beijamos com intensidade e digo:

“Hasta Pronto!”

Munay,

Coração de Iktomi (Wagner Frota)

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