Iniciação Xamânica

 

Napaykuna!
Com o advento da pandemia temos visto uma série de indivíduos oferecendo cursos online de Xamanismo e infelizmente realizando iniciações online.
Antes que isso se torne tendência, escrevo este texto para esclarecer por que na minha perspectiva estas iniciações não são a mesma coisa que uma iniciação presencial.
Para que aqueles que são formadores ou praticantes do Caminho Xamânico que estudam conosco ou com outras escolas talvez possam esclarecer algumas coisas, como para que aqueles que estão começando se informem um pouco mais.
Uma Iniciação é um rito sagrado praticado pelos mestres xamãs, no qual se recebe a bênção, o poder, a conexão com uma força protetora da natureza, e é feito através do rezo intermediado por um(a) xamã, uma oferenda física e pedido feito para seres divinos em terra sagradas. É um fio de energia que se tece entre o(a) iniciado(a) e os espíritos dos ancestrais desse local de poder, cultura ou linhagem; e como qualquer conexão em nossas vidas, é algo que com o passar do tempo escolhemos alimentar ou não. Os Ritos Iniciáticos realizam-se entre xamãs como parte do seu caminho de formação, que pouco a pouco foram abrindo aos estrangeiros que chegavam com boas intenções e uma sincera vontade de curar e se capacitar.
Em uma Iniciação, o fator da presença física é extremamente relevante e implica na maioria dos casos empreender uma peregrinação para um local sagrado. Nas tradições andinas, por exemplo, a alta montanha tem a peculiaridade de ′′espremer′′ energeticamente muitos dos iniciados: o tipo de ar, a força do sol, a qualidade da energia e a pureza da água frequentam os rituais de purificação e preparação para receber o Karpay (Iniciação).
Passo a passo oferecemos partes de nós para o Caminho, dando espaço nosso coração para receber a bênção dos Apus (Montanhas Sagradas) e de Pachamama (Mãe Cósmica). Tempo, movimento e percepção permitem que a energia vá abrindo, e sintamos as vibrações energéticas pulsando dentro do nosso Ser.
Num Karpay sentimos o sopro do(a) xamã que reza sobre nosso campo energético, com a força da linhagem espiritual reverberando na caixa torácica, como uma onda que nos move e remodela por dentro.
Sentimos o calor das suas mãos na testa, o peso da sua Mesa (sacola de medicina) e as khuyas (pedras de poder) tocando nossa cabeça, abrindo nosso coração.
Sentimos o sopro do vento, que traz consigo sussurros dos espíritos da lagoa onde ocorre a maioria das iniciações nos Andes.
Sentimos o forte aroma das ervas que foram colocadas na oferenda, e a super acolhedora beleza dos nevados, e se tivermos sorte seremos abençoados  com o barulho das suas geleiras quebrando.
O néctar do Karpay que recebemos é um aglomerado de pura energia sutil, que será absorvida pelo nosso corpo físico que foi preparado nos dias anteriores para poder assimilar melhor o que recebemos na Iniciação.
E é aqui que surge uma grande interrogação se quisermos transferir estes rituais para um evento online.
Se os xamãs podem nos enviar bênçãos, conexões, realizar cura e oferendas à distância. Essas bênçãos podem abrir nossos caminhos, melhorar as chances de nos ajudar a aprender e a curar. O poder da memória dos Apus e Lagoas não se limitam às manifestações físicas obviamente.
Mas desde a tradição andina, esse mesmo poder está extremamente entrelaçado com a realidade física, com os lugares, e com os processos aos quais submetemos o nosso corpo físico.
Para a Tradição Iniciática Nativa Andina, é importante que honres o teu local de nascimento e tenhas uma boa relação de ayni (reciprocidade harmônica) com ele visitando-o se não vives lá; é importante que faças as tuas peregrinações sagradas anuais, que tenhas as tuas ferramentas físicas e que cuides da maneira como aquela que você se alimenta. É importante que estejas em equilíbrio com o teu ayllu (comunidade), que conheças o teu vizinho, que caminhe pelas montanhas com respeito.
Não há manifestações sobrenaturais com as quais conectamos ou rituais que realizemos que sejam abstratos. Tudo tem uma correlação com um lugar específico na terra e no cosmos.
Se você receber um Karpay à distância, dependendo da força do(a) xamã, será o seu poqpo (corpo sutil) o primeiro a receber a energia dessas conexões. É possível que seu corpo físico ainda não esteja preparado, e então será criado um desfasagem entre os dois corpos.
Se o ou a xamã chama muitas forças e você não tem uma âncora energética em determinado território físico (algo que o proporciona ir diretamente para uma montanha, lagoa ou floresta) pode não estar completo. Na confiança de que tudo o que chega é algo que somará, talvez você não tenha dado tempo ao seu corpo e ao seu ser para que assimilem o que lhe está a ser entregue.
Os trabalhos online são um ótimo recurso, nos permitem acessar mais rapidamente experiências transformadoras e preparam o caminho para quem deseja aprofundar mais tarde em suas práticas. É preciso ajudar os xamãs abrindo esses espaços para que eles ou elas possam continuar conectando com as pessoas, transmitindo sua sabedoria, fazendo suas preciosas oferendas. Como seres “pontes” ocidentais que somos podemos nos inspirar na arte espiritual andina, aplicá-la à nossa vida. Temos a capacidade de despertar a nossa conexão com o território que habitamos, também receber Karpays nesses lugares onde nascemos ou vivemos. Como filhos da terra que somos, esta sabedoria está aberta para vivê-la.
Mas é preciso ser considerado. Há práticas tradicionais que implicam meticulosos procedimentos e que não podem ser replicados de igual forma pela internet.
Por exemplo, quando a cura é sobre alguém que teve um ′′susto′′ o ritual implica num diagnóstico, identificação do causador e local onde foi originado o susto. Neste caso é necessário fazer uma viagem ao lugar e realizar uma oferenda especial, retornar e preparar do corpo para reintroduzir o seu ânimo ou fragmento da alma. É um ritual em que a pessoa entra em contato físico com os elementos, e que tem a necessidade  da  presença do(a) xamã num local específico para negociar com a energia desse lugar em representação do paciente.
É por estes motivos que um Karpay online não é o mesmo que um presencial.
Apelo a que a nossa sabedoria pessoal e coletiva nos guiem através das experiências a poder ordenar as nossas práticas neste caminho, abertos a continuar a explorar e a surpreender-nos.
Munay,
Wagner Frota

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