Munay

Dentro do Xamanismo, descobri que existem modos diferentes de relacionar-se com a terra e a natureza. Para os nativos americanos, a terra não pertence ao homem, nós é que somos dela. É a terra, através de seus frutos, que nos dá a existência. O mesmo sentimento de integração e não separação, que leva os indígenas de hoje em dia a amarem a terra como um ser vivo e consciente, é o que levou as civilizações pré-colombianas da nossa América a desenvolver uma ciência e uma tecnologia que bem poderíamos chamar de ecológicas, as quais permitiram desenvolver, por exemplo, grande concentrações populacionais sem deterioração sensível do meio ambiente.

Ao caminhar pela tradição xamânica andina, descobri que Paq’o não é um xamã no termo específico da palavra. Significa indivíduos que são mestres na arte de “ver” e que sabem utilizar-se da energia. Estas pessoas são respeitadas pelas comunidades andinas em reconhecimento ao seu desenvolvimento espiritual e os benefícios que eles trazem às pessoas. Antes que os humanos fossem convertidos em massas de concreto, eles eram espíritos xamãs e estavam servindo o Grande Mistério da vida que é o Criador. No mundo do Paq’os o cosmo, e todas as coisas no mundo, são um campo de energia. Uma árvore é um campo de energia. Uma montanha é um campo de energia. A pedra. A estrela. Tudo irradia energia, e é composto de filamentos de energia luminosa, que estabelecem comunicação com o infinito.

Nós somos conectados a outras vidas por milhares de anos de existência no cosmo. A realidade não é uma só. Há muitas realidades. A realidade que nós vivemos, em sociedade, é a realidade que foi descrita quando éramos crianças. Mas de repente descobrimos que há muitas outras realidades. Mas o mais importante é que há uma outra realidade que é uma realidade não ordinária conectada ao mistério de existência. Por exemplo, o amor, o que é o amor? Um sentimento? Não! O nome dele é “Munay”, uma força emanada do Grande Espírito. Todas as sementes do cosmo brotaram do Amor. Ou Munay. Olhamos para a lua, e sentimos a força deste amor pulsando dentro de nós.

Geralmente sabemos quando existe uma energia destrutiva e outra construtiva. Sabemos que a energia dos olhos é agressiva e que a energia da orelha é passiva. Quando escutamos, nosso corpo de energia abre a energia feminina e fica receptivo. Olha como é simples. Nós temos que aprender a ser passivos e nós temos que aprender usar a energia ativa. Temos que aprender diferenciar corretamente nossa energia destrutiva e nossa energia construtiva. Existe um ditado que diz: “Só o amor constrói”.

Mas como encontrar o Munay? Uma forma é escutar o silêncio. No meu caminhar, ao escutar o silêncio profundo da pedra ou a voz da árvore aprendi que ouço a voz do espírito. Quando ouvirmos o silêncio, acharemos finalmente que nosso coração é um instrumento musical… e o silêncio da noite torna isto possível para o espírito vir até nós e fazer parte deste instrumento. Em qualquer tipo de situação, você tem a escolha de conectar com a energia que flui no cosmo. Só nós podemos transformar aquela energia verdadeiramente em amor, e trazer aquele amor para todo nosso corpo. É muito diferente do “poder pessoal”. A coisa importante é trabalhar com intento e incorporar aquela energia cósmica, transformando-a para projetar aquela energia para os outros. Este é o princípio essencial da arte xamânica no Andes.

Se nós aceitamos a descrição dos filamentos, nós descobrimos que ainda somos crianças. Nós descobrimos que nós estamos sentados no colo da Grande Mãe que é Pachamama. Deixemos de lado por um momento nossa arrogância pessoal, as proteções e estruturas mentais, e sintamos o colo de Pachamama. Esqueçamos de nossa face cultural e tentamos recuperar, se lembrar, da primeira face que nós vimos quando nós nascemos. Essa é nossa melhor face. Recordemos a primeira vez em que vimos a face de Pachamama. Iremos assim sentir e permitir que aquela onda de energia percorra pelo nosso corpo.

A primeira coisa que temos que fazer para sentir isso é não “fazer” qualquer coisa. Absolutamente nada. A coisa mais interessante sobre nosso trabalho é não ficar “fazendo” nada. Nós vivemos “fazendo” coisas o tempo todo. Se nós não “fazemos”, então nós sentimos como se fossemos um fracasso… que nós estamos desperdiçando nosso tempo. Seguramente, todos nós temos coisas para “fazer”, mas é tempo para prestarmos atenção e não escolher nosso tempo para “fazer” qualquer coisa. Então podemos observar, incorporar e assimilar. Então o sol virá, ou o vento, e então tudo ficará óbvio. Isso é como nós transformamos energia.

A vida de um Paq’o é uma vida de serviço. Todo ser vivente no universo tem uma relação para consertar que deve ser descoberto e deve ser desenvolvido e reconstruído. De algum modo, nós temos que aprender com Pachamama, a Mãe Terra. Todas as práticas do Paq’os são modos para curar nossa relação com as forças cósmicas e trazer equilíbrio para nossas vidas, tecendo uma teia de energia com todas as coisas.

O Xamanismo é uma responsabilidade espiritual e estética de todos nós. O mundo foi desenvolvido com abuso e exagero. O mundo tecnológico alcançou um nível incrível, bonito, mas produziu exageradamente um desequilíbrio na Mãe Terra, devido à ganância do homem. O grande corpo da natureza constantemente demonstra reciprocamente que o idioma universal é o do espírito. Esta reciprocidade, especialmente no campo de energia, cria uma harmonia que pode equilibrar a energia coletiva do planeta dentro de uma matriz antiga da ordem universal. O idioma formal e o cultural criam limites. A essência principal da vida é a Natureza e o idioma é o amor. Se não há nenhum amor, então nós temos que usar nossa mente, mas ela freqüentemente só traz preocupações. Nosso trabalho mais importante é pôr nossa mente no travesseiro e deixar que ela descanse. Esqueça isto. A mente é um espelho de nosso ego e nos carrega com todos os tipos de reflexões, racionalizações, inseguranças, e diálogo interno. É necessário abrir as portas da percepção e escutar com seu corpo inteiro. Desta forma, seu diálogo interno desaparecerá. Se nós formos além de nosso diálogo interno e abrir-mos as portas à energia do cosmo, e escutarmos o silêncio, nós perceberemos que tudo é povoado por vozes. A primeira voz que nós ouvimos pode ser o espírito do fogo ou o do vento, e então nós notaremos que as outras vozes da natureza virão. A árvore, a pedra, a água. E pouco a pouco, nossos corpos tomam consciência que nós somos uma parte da grande totalidade da energia cósmica. Se você conecta com os filamentos do cosmo, então você não é um indivíduo separado do resto do universo inteiro. Se você conecta seu corpo com as pedras, com as árvores, com o céu e com o cosmo inteiro, você verá então que é muito fácil transformar a energia da vida. Imagine como são insignificantes os problemas cotidianos, quando uma pessoa sabe manipular o uso correto de energia.

Verdadeiramente, nós estamos aqui para não fazer nada. “Nada”, é a coisa mais difícil para fazer porque nós vivemos fazendo coisas e usamos a nossa energia para tal. Nós sempre estamos sofrendo com aquele diálogo interno que não deixa nossa mente só. Assim, nosso trabalho tem certas divisões aparentes. Primeiro, nossa tarefa é estabelecer contato com os espíritos da natureza. Nós temos que aprender a curar com pedras, ervas, e o vento. Nós temos que saber como a energia do cosmo trabalha em nosso próprio corpo. Nós temos que ver além do que nossos olhos físicos podem ver, temos que aprender a ver com nosso corpo inteiro. E a coisa mais importante é permitir que nosso coração nos conduza nesse processo. Isso é a primeira parte do trabalho. A segunda parte é o intenso processo de meditação que nos conecta com o Espírito e com as forças invisíveis. Pondo nossa mente para descansar e jogando fora toda a energia supérflua de estados meramente mentais da consciência. Nosso terceiro trabalho é a iluminação, onde alcançaremos a evolução necessária para conectar com o cosmo de forma que nós podemos sentir a nossa luz interna. Nós temos que sentir o fogo interno de outros estados de consciência que nós temos, que nunca experimentamos antes. Em meu próprio caminho, eu percebi que nossa terra, Pachamama, é maravilhosa. Isto é maravilhoso! Ninguém pode me falar que, em todas as constelações e milhões de mundos no cosmo, possa existir um planeta mais maravilhoso que nossa Terra! Eu sei que pode ser uma arrogância pensar assim, que existem outros lugares na galáxia, mas nenhum deles é a nossa Mãe Terra. Como se pode notar, eu estou muito interessado na asa purpúrea da borboleta. Eu estou muito interessado na respiração do Lobo. No vôo do Beija-Flor. O que pensa o Puma do Condor? O que pensa o Jaguar na floresta? O que pensa a floresta do rio? Esta é a voz da natureza na qual o chorar de medo, é simplesmente falta de amor.

Como filho da Terra, de Pachamama, tenho dentro do meu Ser “mucho Munay” para com ela. Ao caminhar pela natureza, sinto a presença deste amor infindável. Ao caminhar sobre ela, sinto que estou em casa, vivendo num mundo muito maior do que possamos imaginar. Um mundo repleto de animais, árvores, flores, homens, rios, lagos e montanhas que são a nossa verdadeira herança natural, herança que não é possuída, mas para ser desfrutada nem que seja só nesse instante que é nossa existência como mortais. Deixar-se atingir pela formosura e pelo mistério da natureza em cada uma de suas expressões é aceitar o presente da terra e reconhecer a nossa esquecida natureza: somos também seres deste mundo, mais um detalhe da paisagem, a mesma magia e mistério pulsa e se mexe em cada um de nós. Então, ocupemos sem reservas o lugar que nos corresponde dentro do grande concerto da natureza espalhando Munay pelos quatro cantos do Ser Terra.

Para mim, Munay é representado pelo encontro íntimo que sempre realizo com a Terra tendo a natureza como espectadora. Abraço a terra e mergulho na sua presença. Depois, sem deixar de abraçá-la e acariciá-la, converso com ela em voz alta com palavras íntimas e pessoais, agradecendo-a por ter estado sempre ali ao meu lado. Falo da tristeza que tenho quando não me lembrava dela, da falta que me fazia e da felicidade que tenho por reencontrá-la. Sempre que posso realizo uma oferenda, reassumindo o compromisso de nunca mais esquecê-la e continuar amando-a até o momento em que ela por fim me receba de novo em seu seio para libertar-me de todas as cargas. Dou-lhe um beijo e volto a caminhar pelo mundo, imersos no seu abraço secreto e amoroso…

Munay,

Wagner Frota, “Jaguar Dourado” (um Guerreiro do Coração)

Voltar

Os comentários estão encerrados.

Creative Commons License xamanismo.com - Caminho Xamânico - Esta obra é licenciada por uma licença:
Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil.