Turismo Místico nos Andes

 

Napaykuna!

Fazem 20 anos que estudamos o Xamanismo praticado nos Andes, realizando uma série de viagens a Bolívia, Equador e Peru, onde tivemos a oportunidade de conviver com algumas etnias e seus yachacs (sábios xamãs). Durante estas duas décadas investigamos profundamente a Cosmologia Andina e de certa forma, nos tornamos mensageiros (Chaskis) desta Cultura Ancestral das Américas, o que culminou com a confecção do nosso mais novo livro: “Xamanismo nos Andes – Cosmologia, Mitos & Ritos”… porém não é sobre ele que queremos falar hoje, e sim sobre o nicho comercial que existe em torno do Turismo Místico nestes países andinos, mas particularmente no Peru.

Para explicar o nosso raciocínio crítico, devemos realizar uma jornada no tempo e voltar a Cusco na década de 1970, quando esta cidade começou a ser envolta por uma bruma mística com o lançamento do livro “O Segredo dos Andes” pelo escritor George Hunt Williamson (Brother Phillip). Nesta obra literária o autor escreveu sobre o legado de uma antiga civilização perdida na Cordilheira dos Andes. Na realidade, Brother Phillip falou sobre uma Irmandade Ancestral que vivia no Lago Titikaka, fazendo com que turistas estrangeiros, como também bolivianos e peruanos viessem a Cusco (a Meca Andina) em busca desta Cidade Mítica perdida nos Andes. Desta forma, nasceu um Turismo Esotérico que passou a oferecer a seus clientes iniciações para serem um sacerdote andino, aprendizes secretos de um conhecimento metafísico inka, o que culminou na oferta de diversos produtos: livros esotéricos, misticismo cósmicos, pirâmides andinas, aldeias zoomorfas, códigos secretos, portais interdimensionais, consumo de plantas enteógenas, falsificação e adulteração de textos antigos, consumismo xamânico alocado, etc.

Mas tudo isso não se deve só ao lançamento do livro “O Segredo dos Andes”, vem na verdade com o surgimento do Movimento da Nova Era que surgiu em consequência de um desamparo espiritual após a Segunda Grande Guerra Mundial e ganha força com o Movimento da Contra-Cultura. Em meados da década de 1960 surge uma explosão de inúmeros gurus (dando uma aureola mítica ao Oriente) que fazem a cabeça de artistas, até hoje para muitos só o fato de terem estado na Índia ou Nepal representa uma espécie de certificado de graduação espiritualista. Na mesma época OVNIs surgem no céu, e a “Portas da percepção”são abertas pela geração Beat, o que fez com que Carlos Castaneda e Michael Harner realizassem suas investigações sobre o Xamanismo nas Américas.

Com o lançamento do livro do Brother Phillip, “O Segredo dos Andes”, houve uma estimulação da imaginação e curiosidade da juventude ocidental para sair em busca da Shangri-la Andina no Lago Titikaka. Este “Tsunami espiritualista andino” aumentou na década de 1980, depois que Shirley McLaine foi ao Peru e revelou nos meios de comunicação que encontrou um extra-terrestre que se apresentou como seu Guia Espiritual… este fato gerou um livro escrito pela atriz, e um filme protagonizado por ela. Operadoras de turismo e seus guias, a par destas informações, descobriram (junto com grupos esotéricos, espirituais e ufólogos) um novo filão turístico e começaram a criar toda uma infra-estrutura para satisfazer a demanda que surgiu. Desta forma foram criados “Ashrams” e Monastérios (dois espaços que não existem na cultura Andina) por agências de turismo e líderes de grupos da Nova Era que validaram os dotes clarividentes de seus líderes para usufruir deste novo filão.

No início as Agências de Turismo utilizaram os serviços de reconhecidos espiritistas, ufólogos e ocultistas do meio esotérico, mas devido a diversidade das exigências dos turistas, surgiram uma nova classe de cicerones misticóides, versado em: Curandeirismo, OVNIs, Arqueológia Psíquica, Eco-religião, Neo-teosofismo, Telepatia Inter-estelar, Pseudo-Gnosticismo, Xamanismo Andino, etc. Estes “pseudos-mestres” são apresentado como “herdeiros dos Inkas”, Mensageiros do Espaço, Sacerdote Andino (P’aqo, Alto Mesayoc, Kurak Akulleq, etc.). Muitos deles são simples camponeses que foram recrutados pelas agências e grupos espirituais, e treinados para impressionar os turistas, dando uma espécie de autenticidade as iniciações que realizam de incautos que buscam o desenvolvimento espiritual.

Aproveitando que na língua Runasimi a palavra “Qosqo” (Cusco) significa umbigo, essas pessoas que trabalham com o Turismo Místico realizam uma série de propagandas dizendo que a antiga capital dos Inkas é o “Umbigo do Mundo”, fato que atrai inúmeros turistas que buscam beber da sabedoria ancestral dos povos andinos. Inclusive alguns grupos espiritistas falam e creem que o Lago Titikaka é o “Polo Feminino do Mundo”, como os Himalaias seria o “Masculino”… argh! Tudo isso não passa de “invenções” de grupos da “Nova Era”. Vivemos sim, num momento em que a Energia Feminina está retornando com força total, mas ela não está localizada num só local, pelo contrário: ele vive e se expande por todo nosso Planeta, como também dentro dos nossos corações.

Se nos séculos XVI e XVII os povos andinos sofreram as consequências da extirpação de idolatrias por parte do cristianismo, hoje neste tempo moderno o mesmo ocorre por meio de grupos religiosos, ONGs e a indústria turística, que se esforçam em destruir a cultura milenar que possui a sociedade andina, transformando a cultura desta sociedade em uma mercadoria. A cada dia que passa, somos surpreendidos com uma série de novas invenções criadas por esses grupos citados. Nestas duas décadas que caminhamos pela Cordilheira Andina, fomos apresentados a alguns charlatães que se intitulam “gurus andinos” e realizam atividades como Yoga Andina e vêem o futuro nas lâminas de um Tarot Incaico, sendo que os Inkas nunca trabalharam com essas cartas… o mesmo ocorre com grupos que bebem ayahuasca e dizem que ela era a Bebida Sagrada dos Inkas, sendo que não existe nenhuma prova etnológica e nem arqueológica de eles faziam uso desta Planta Mestra. O único enteógeno que está registrado em artefatos arqueológicos é o do Wachuma (cacto San Pedro), mas mesmo assim foi encontrado somente na Cultura Chávin na costa do Pacífico e não nas regiões serranas onde vivia a elite incaica.
Já fazem dez anos que organizamos e levamos grupos numa Jornada de Conhecimento nos Andes, mas sempre temos o cuidado de informar aos participantes de que ninguém voltará desta viagem como um “Iniciado”, um “Xamã” ou outra coisa similar. Pelo contrário, todos somos Buscadores (Peregrinos) de uma Sabedoria Ancestral Intrínseca que está registrada em determinados lugares de poder (huacas), mas que cabe a cada um de nós descobrir. O conhecimento está lá, mas para que possamos ter acesso a ele devemos ver, ouvir e sentir com o nosso Coração e não como a mente (que constantemente nos prega uma série de peças). O que fazemos como “Promotores” é facilitarmos e levarmos os Buscadores, a essas huacas… mas cabe a cada um descobrir e captar esse conhecimento que nos foi legado pelos sábios andinos em formas pétreas, ou apenas sentir a energia cósmica e telúrica destes lugares sagrados.

O que intentamos neste pequeno artigo foi o de mostrar o verdadeiro rosto e a natureza do que está involucrado dentro da denominação aparentemente inofensivas do “Turismo Místico”, que não ocorrem somente nos Andes mas em outros Países que se utilizam do mesmo subterfúgio para lucrar com o Sagrado. Em nossa caminhada, descobrimos que o Caminho Espiritual sincero não é nada atrativo e muito menos fácil de percorrer. Por essa razão, são poucos os que conseguem superar todos os obstáculos apresentado no Caminho e seguir adiante. Aconselhamos aqueles que queiram realmente se aproximar da espiritualidade andina, que no lugar de procurarem uma Agência de Turismo Místico, procurem uma que faça um Turismo Cultural e Vivencial, pois ali não encontrará “especularidade” nem “assombrosas revelações” que tanto buscam hoje intencionalmente ou subconscientemente desejam encontrar, de qualquer maneira, coisas que os separem do tédio de seu conforto burguês e da opacidade despersonalizada da vida moderna.

Já fazem mais de 500 anos de ocupação e profanação de Lugares Sagrados nos Andes. Hoje os Pizarros, Almagros, Valverde e “Reis regentes” são os Grupos e Agências que praticam o Turismo Místico, que empreenderam uma invasão menos espetacular que a anterior, porém por isso mesmo pode ser mais perigosa, pois agora o saque não consiste em ouro, prata ou pedras preciosas, e sim a Alma Andina, e nenhuma estratégia é melhor do que a de se apoderar de sua tradição espiritual e pô-la em oferta, convenientemente adulterada e orientada segundo as expectativas e desígnios do “Ocidente Moderno”.

Reflitam com o coração e nunca esqueçam que a Cultura dos Povos Originários devem ser sempre respeitadas por nós, devendo ser preservada e não deturpada como vemos ocorrer nos dias de hoje.

Munay,

Wagner Frota

 

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