A Jornada da Morte

A Vida termina com última respiração, da mesma maneira que começa com a primeira.

Muitos de nós crescemos com a ideia que quando nós morrermos iremos para céu se formos bons, ou para inferno se nós formos maus. Os conceitos de céu e inferno são estritamente europeus. Para o Xamã não há nenhum céu sobrenatural. Só o mundo natural existe, com seus reinos visíveis e invisíveis entre qual esta o mundo do Spíritu. Também, não há nenhum princípio mal independente no Universo. Ao invés disso, nós vivemos em um Universo benigno que se interessa pelo nosso bem-estar. O mal só existe nas mentes dos homens e mulheres. Não existe uma força predatória contrária, fora a força que nos guarda. Quando os missionários começaram a falar sobre inferno, os índios perguntaram onde ele era localizado. Os padres responderam que não estava no mundo visível. A analogia mais próxima que eles poderiam imaginar para descrever a localização de inferno era apontando para o solo abaixo de seus pés. Isto confundiu os indígenas, porque eles entendem que toda a vida vem da Terra, que é nossa Mãe.

Com o fim da vida em nossos corpos físicos, a alma se prepara para sua grande jornada. Quando o cérebro deixa de funcionar, o campo eletromagnético criado pelo sistema nervoso central se dissolve, e o nosso Campo de Energia Luminoso se livra do nosso corpo físico. Isto ocorre da seguinte maneira: O Campo de Energia Luminoso cresce como se fosse um ovo translúcido, moldado, que contém os chacras que continuam pulsando como pontos de luz durante as primeiras horas após a morte. Se tudo transcorre suavemente, este orbe luminoso que é a essência ou alma do indivíduo viaja então pelo eixo do corpo luminoso, até se tornar um junto com o Spíritu. O Campo de Energia Luminoso se aperta pelo portal criado por seu eixo central, como uma rosquinha que se aperta pelo seu próprio buraco.

Quando uma pessoa agonizante retém a consciência dela depois da morte, entra na luz facilmente. Minha mentora comparou esta luz como um amanhecer em uma manhã sem nuvens, um estado de pureza primordial, imenso e vasto, que desafia qualquer descrição. A escuridão da morte, causada pelo colapso das nossas sensações, retrocede e é dispersa pela luz do Spíritu.

Os nativos da tribo Huachipayre do Alto Amazonas, acreditam que eles podem viajar além dos domínios da morte quando ingerem a Ayahuasca. Durante a cerimônia eles experimentam frequentemente visões terríveis da sua morte. Em alguns casos eles são retalhados por um jaguar ou engolidos por uma jiboia gigantesca. Uma vez, enquanto trabalhava com eles, eu senti a minha face bicada por uma águia esmeralda gigante. Toda vez que seu bico rasgava a minha carne, eu sentia uma dor penetrante. Muitos dos ritos iniciáticos da antiguidade incluindo os egípcios, gregos, e sírios foi projetado para levar o iniciado por um processo semelhante à morte simbólica pela qual ele deixava de identificar-se com o seu ego.

Em meu treinamento com xamãs na Amazônia eu realizei ritos da morte complicados que me despojaram de todo meu ego. Durante cerimônias com a Ayahuasca eu fui assombrado de maneira que eu nunca tinha pensado ser possível. Todo tipo de “demônio” imaginável apareceu na minha frente. Meu corpo foi desmembrado de tudo que era jeito. Até que fui envolvido por uma luz e fiquei a parte do que estava ocorrendo. Por poucos anos eu trabalhei junto com a Ayahuasca, até o dia em que eu descobri que não precisaria percorrer o caminho do medo para experimentar a luz infinita. Naquela noite minha Mentora virou-se e disse: “A Morte já não vive dentro de você. Você a exorcizou. Você nunca poderá ser reivindicado por ela”.

Minha Mentora preparou-se durante toda sua vida, para esta jornada. Antes de ela morrer, explicou que os passos da jornada eram diferentes para ela como xamã, do que para alguém que está desprevenido para conhecer a sua morte. Ela esperou atingir a liberdade total no momento da sua morte, durante o amanhecer da Luz do Spíritu, como ela chamou esse momento. Na hora, ela explicou, você percebe o amanhecer como se estivesse no topo do mundo. Você é mais alto que as mais altas das montanhas. Não é só o amanhecer que surge a nossa frente, mas sentimos o sol subindo em nossa barriga simultaneamente e sentimos toda a Criação mexendo dentro de nós. Você se rende à luminosidade ao seu redor, e somos envolvidos por ela, até tornarmos um com a Luz. Durante esta fase, sentimos nos rendermos à luz. Lendas xamânicas dizem que todos nós somos viajantes das estrelas, e neste momento realizamos a nossa grande jornada.

Se a pessoa não reconhece o amanhecer como o despertar da sua própria consciência, o sol continuará subindo em um milhão de cores deslumbrantes. Toda natureza se manifesta em uma exibição atordoante de som e luz. É como se o primeiro dia da Criação estivesse surgindo de novo. Nesta fase, as forças da natureza se manifestam na sua mais pura essência. Ao nos separarmos do corpo físico, a Água aparece como fluido de luz; a Terra aparece como luz; todos os elementos são representados pela sua luminosidade e funde-se em bolas de energia. Nesta fase nós temos uma segunda oportunidade para reconhecer nossa natureza luminosa, ver que nós não estamos separados da luz e fazemos parte das energias que estão ao nosso redor. Um xamã passa a vida inteira preparando-se para este momento, onde poderá atingir a liberdade total da sua consciência durante as primeiras duas fases da morte. Porém, outros podem experimentar um momento de perda da consciência. Para eles este processo passará num instante, como uma luz ofuscante. Eles podem nem mesmo perceber pelo que passaram.

A ventania da morte é tão poderosa que muitas pessoas ficam inconscientes e só despertam na terceira fase da jornada. Nós observamos que nós ainda temos uma forma, que nós somos um homem ou mulher, e que podemos ser jovens. Mas o amanhecer da consciência passou, e nós estamos agora no crepúsculo do dia. As cores não são bem definidas, embora nossa consciência esteja tremendamente exaltada. Nossos juízos ordinários não estão separados. Nós sentimos com a totalidade de nosso ser, e tudo ao nosso redor está vivo. Nesta fase nós passamos por uma revisão da vida panorâmica em qual toda ação e atos que nós executamos aparece antes de nós.

Depois do processo de revisão de nossas vidas, conhecemos aqueles que morreram antes de nós, inclusive pais, amigos, e as pessoas que tenhamos ferido ou prejudicado. Minha Mentora explicou que há vários níveis neste domínio, um vibra a uma frequência mais alta que o que esta abaixo dele. Os mais baixos níveis são muito densos, associado com os domínios das Pedras e das Plantas. Pessoas presas nestes domínios mais baixos estão sofrendo para purificar-se em um mundo de escuridão onde eles não têm nenhum olho para ver e nenhuma mão para sentir. Eles só sentem a presença vaga de outros. Aqui nós revivemos nossa dor e sofrimento. Os níveis mais altos são joviais e cheios de paz. Nos reunimos ao ser amado e nos aquecemos na luz do Spíritu até nossa próxima jornada. Nós gravitamos naturalmente para um nível ou outro, dependendo em como nós vivemos nossa vida. Nós podemos ver esses níveis abaixo, mas não podemos ser visto por eles, só podemos falar e interagir com os seres do nosso nível. O quarto nível é nossa tribo espiritual onde nós conhecemos nossos antepassados e a nossas verdadeiras famílias.

O quinto mundo é o domínio de seres luminosos dedicado a ajudar toda a humanidade. Xamãs dominaram a jornada além da morte para este nível. Há muito tempo, quando os ritos da morte xamânica foram desenvolvidos, este era um nível difícil para atingir. Hoje é muito mais acessível. Rastros brilhantes foram deixados por homens e mulheres corajosos que vieram antes de nós. As profecias dos Hopis e dos Inkas falam que nosso planeta inteiro emergirá no quinto mundo. Eles se referem a nossa entrada nos domínios angelicais, dos Seres-Pássaros. Minha Mentora dizia: “Nós não cultivamos milho, mas deuses”.

 

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