Divagações sobre o Sagrado Caminho do Xamanismo

Ultimamente tem-se discutido em encontros que participei, qual seria o termo que deveria ser usado para classificar o xamanismo contemporâneo, nomes como neo-xamanismo, xamanismo universal e até xamanismo urbano foram cogitados. Nestas reuniões também foram debatidas uma definição para o que vem a ser xamanismo e se existe algum critério para classificar se determinadas práticas são xamânicas ou não? Aprendi com um Mestre Peruano que “Opinião não é conhecimento”, sendo assim, procurarei neste artigo expressar a opinião de uma pessoa que procura Trilhar o Sagrado Caminho do Xamanismo.

Não sei se vocês notaram, mas a cada dia que passa surgem novas tradições xamânicas, porém elas não são tão novas assim. O que ocorre é que determinadas sociedades tradicionais estão lembrando da profecia do arco-íris e estão começando a se abrirem para o mundo exterior.

No passado, os xamãs originaram-se de uma cultural tribal familiar e ministravam seus ensinamentos e curas dentro da sua tribo. No mundo atual temos que observar que comunidade não significa necessariamente as pessoas que vivem juntas na mesma área geográfica. Podemos realizar curas a distância e auxiliar alguém que está do outro lado do mundo. Quando desenvolvemos o que Don Juan chama de segunda atenção tudo é possível, depende só do nosso poder pessoal.

Xamãs são necessário quando o relacionamento entre o homem e o Universo estão enfraquecidos ou foram interrompido. Em todas as culturas nativas eles são os mediadores entre o sagrado e o secular.

Deixemos claro que xamanismo não é uma religião. Não existem regras nem normas. O xamanismo é uma cultura, filosofia, misticismo, um modo de vida, enfim um caminho a ser percorrido com o Coração. Esse é um caminho vivo e dinâmico, sem dogmas, baseado em princípios iniciatórios e metafísico. É impossível descreve-lo, podemos apenas vivenciá-lo. O xamanismo é um caminho em busca do sagrado que utiliza-se da força universal apenas de uma maneira positiva.

O xamã e a vivência xamânica não tem nada a ver com se religar, com voltar a se encontrar com algo ou alguém como fazem as religiões. O xamã vive o pulsar da terra, no movimento da terra não existe preconceitos e dogmas como nas religiões. A vivência xamânica é o sopro do ar, é o calor do sol, é sentir que a terra é nossa Mãe.

A religião e os que a professam sempre tem partido de uma visão mental e tem interpretado o mundo de acordo a especulações mentais do seus fundadores e líderes, que na maioria das vezes utilizam-se de um livro, chamado por eles, de sagrado. Já para nós, caminhantes do xamanismo, o livro mais sagrado e a nossa Mãe Terra.

Para mim o xamanismo deve ser uma experiência com realização pessoal. Muitas vezes tenho ouvido em círculos xamânicos que o xamanismo tem como finalidade a liberação e uma das experiências mais fortes é a do ” rito iniciático da morte xamânica”, meus irmãos esta vivência será sempre pessoal, aqui não existe livro ou curso que sirva, só a sinceridade e reconhecimento daquilo que somos, seres livres e de luz. O que estou querendo dizer é que no xamanismo não existe teoria, porque é o mundo de nossas almas ou luz energética, e lá não há literatura, só o mundo do coração e do espírito; se o coração esta bem e o espírito ilumina nosso caminho com segurança, então estamos vivendo uma experiência xamânica intensa. Workshops e livros podem nos auxiliar como muletas, pois são reflexos de experiências de pessoas realizadas em seus caminhos, mas a realização final esta dentro de cada um de nós.

Entrando no nosso mundo interior, encontraremos nosso Mestre Interior, a Luz Interior que nos ilumina e iluminará aqueles que se aproximem de nós. Ao seguirmos em direção a nossa harmonização física, mental, emocional e espiritual, chegaremos a dimensão da alma que representa a magia da vida.

Não gosto do termo neo-xamanismo, xamanismo universal ou xamanismo urbano, para mim isso são nomes estanques criados apenas para atrair pessoas que buscam algo novo. Sabemos que é impossível revivermos nossa herança paleolítica. O passado ficou para trás como um casulo de uma lagarta que transformou-se numa bela borboleta. O xamanismo se modificou – tal como ocorre com o meio-ambiente, o clima e a sociedade -, mas a essência permanece a mesma. Apesar de haverem muito sincretismo religiosos envolvidos atualmente.

Budismo, capitalismo, comunismo, cristianismo, feminismo – todos estes “ismos” são doutrinas ou ideologias estabelecidas em relação com outras ideologias e que estão dotados de textos, ministram ensinamentos e possuem aspirações políticas e sociais. Os xamãs e suas comunidades não fizeram assim, de um modo geral, e as ideias e práticas xamânicas coexistem com maior ou menor liberdade com os sistemas formalizados. Talvez as atividades do xamã devessem ser designadas “xamaria” – analogamente a feitiçaria – e a qualidade profissional do xamã talvez merecesse um nome próprio. Pelo menos, e uma vez que não existe uma ideologia unificadora, teremos de falar em “xamanismo” no plural.

Como uma serpente que solta a sua pele, o xamanismo se renova de dentro para fora.

Aquelas pessoas que imitam as antigas tradições estão iludindo a si mesmas quando “religiosamente” repetem antigos padrões. Ruth-Inge Heinze escreve uma coisa muito interessante em seu livro “Shamans of the Twentieth Century”: Por não estarem familizarizados com os sistemas de crenças sobre os quais os “antigos” rituais foram construídos, sua imitação “cega” obstrui o processo de desenvolvimento do ritual. Em outras palavras, épocas diferentes dão origem a rituais diferentes.

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