Iniciação

Aparentemente, homens e mulheres apresentam potencial para a prática xamânica, mas, nas culturas em que as exigências da vida diária são grandes e continuas para as mulheres, os homens podem simplesmente ter mais tempo livre para dedicar-se a um treinamento xamânico prolongado. O conhecimento pessoal e o poder do xamã são obtidos em muitas viagens aos outros reinos da consciência e “anos de experiências xamânica são habitualmente necessários para alcançar um Alto grau de conhecimento do quebra-cabeça cósmico”. Assim, a motivação, a disposição e o tempo para se comprometer com um longo período de aprendizado são pré-requisitos para ingressar no xamanismo.

A prática do xamanismo é sempre considerada repleta de graves riscos para a vida e o bem-estar do praticante e, em certos casos, as mulheres podem estar mais capacitadas ou dispostas a percorrer o território do sobrenatural. Na China, o “despertar da alma”, aspecto particularmente perigoso do xamanismo, é quase sempre praticado por mulheres. No xamanismo asiático, observa que as mulheres das periferias da família chinesa eram as únicas que ousavam mediar com os ancestrais, pois tinham muito pouco a perder ao se entregarem a uma tarefa tão temível. Quando as circunstâncias econômicas levavam-nas a ter de contar com seus próprios recursos, elas usavam capacidades intuitivas, em uma aplicação sobrenatural, para “esquivar-se das vicissitudes de uma sociedade dominada pelo homem”. Isso também acontecia na Europa, onde as oportunidades econômicas, para mulheres que não fossem bem-nascidas, iam do escasso ao inexistente, até o século passado.

Os requisitos básicos para criar uma atmosfera de referência, poder espiritual e onisciência, e resistência para manter um desempenho que exige concentração durante horas e até mesmo semanas. A inclinação para o xamanismo é demonstrada pelo relato de ocorrências sobrenaturais durante a busca da visão, sonhos repletos de mensagens e premonição ou talentos como clarividência. Os comportamentos presumíveis do candidato tendem a indicar uma capacidade imaginativa maior do que a habitual e/ou uma milagrosa capacidade para recuperar-se de uma doença significativa, daí as noções de “doença divina” e do “curador ferido” que prevalecem em toda a literatura sobre xamanismo.

A doença tem pelo menos dois papéis na escolha xamânica da vocação pelo caminho do xamanismo. Primeiro, ser acometido por certas doenças pode automaticamente incluir alguém nas fileiras dos xamãs potenciais. Na Sibéria, por exemplo, ter epilepsia ou outras doenças nervosas é uma clara indicação de talento xamânico. Em segundo lugar, o chamado iniciático, em que a vocação é revelada, pode sobrevir durante uma crise física ou mental aguda. Essa questão é abordada por Joan Halifax, que conta que a iniciação sobrevém, com freqüência, da crise provocada por uma doença grave que envolve em encontro com forças da decadência e da destruição. “A doença torna-se, assim, o veículo para um plano mais elevado de consciência”. Ela se refere ao xamã Matsuwa, que não recebeu o xamanismo até perder a mão direita e mutilar o pé. Só perante a crise iminente é que ele reconheceu seus poderes.

Há um relato da iniciação de um xamã, um homem atacado por varíola, que permaneceu inconsciente por três dias. No terceiro dia, ele parecia tão inerte que quase foi enterrado. Ele teve visões em que descia a um mundo profundo no interior da Terra, onde foi carregado para uma ilha sobre a qual se erguia a Árvore do Senhor da Terra. O Senhor deu-lhe um galho da árvore para com ele fazer um tambor. Prosseguindo, ele chegou a uma montanha. Entrando em uma caverna, viu um homem nu, que o agarrou, decepou-lhe a cabeça, cortou seu corpo em muitos pedaços e cozinhou-o em uma caçarola durante três anos. Decorrido esse tempo, seu corpo foi reconstituído e revestido de carne. Durante suas aventuras, ele encontrou xamãs malvados e senhores das epidemias, que lhe transmitiram instruções sobre a natureza da doença. Ele foi fortalecido na terra das mulheres xamãs, que lhe ensinaram a “ler dentro de sua cabeça”, a ver misticamente sem seus olhos normais e a entender a linguagem das plantas. Quando, finalmente, despertou ou, melhor, foi ressuscitado, pode começar a praticar o xamanismo.

Até mesmo na avaliação da medicina e da ciência contemporâneas os xamãs escolhidos por causa da doença física tinham poderes especiais. Uma pessoa que sobreviveu à varíola, a mais temida de todas as pragas, conseguia caminhar entre os doentes e tratá-los sem receio de contrair a infecção. Qualquer contato com a morte, por mais breve que fosse e do qual a pessoa emergisse tendo conhecimento daquele encontro, bem como uma imunidade especializada, deveria ser considerado um claro chamado para curar. É um pressuposto razoável o de que os xamãs tinham um magnífico conjunto de células brancas no sangue.

Relatos de iniciações assustadoras não são incomuns. Estas provações ocorrem, sobretudo, durante as buscas rituais da visão, quando se procura uma vocação, após dias de jejum e isolamento. Dessa forma, o brio e a motivação dos futuros xamãs são testados. O tema subjacente é, repetidas vezes, o da morte e renascimento, em visões bastante comuns de desmembramento e reconstituição física.

Jilek relata um exemplo contemporâneo do mito de morte e renascimento ocorrido no ritual de iniciação dos índios salish. Esses índios acreditam que o poder xamânico de cura é acessível a todos, sendo “uma compensação divina pelos avanços tecnológicos da civilização branca”. Os escolhidos para exercer o poder são chamados de dançarinos do espírito e são iniciados por um período que se estende por mais de uma semana. Durante esse tempo, de acordo com um relato, “chama-se um novo dançarino de bebê, porque ele está começando a viver… ele é indefeso”. De acordo com outro testemunho, “eles (os iniciadores) te matam como uma pessoa má, eles te revivem para ser uma nova criatura, é por isso que te dão uma cacetada e você desmaia, mas volta…”.

A iniciação xamânica dos salish inclui, primeiramente, um período de tortura e privações: levar cacetadas, ser mordido, jogado de um lado para outro, imobilizado, ter os olhos vendados, ser objeto de caçoadas, passar fome. Quando o iniciado “aprende bem a lição” ou quando a lousa de sua mente é inteiramente apagada, o espírito guardião ou animal de poder aparece. Esta segunda fase da iniciação é acompanhada de uma atividade física significativa: correr descalço na neve, nadar em águas gélidas, dançar e tocar tambor até a exaustão. Durante o período de doutrinação, os índios narram a entrada em estados de transe ou bem-aventurança, que alguns comparam com a embriaguez pelo álcool ou com o uso da heroína. Outros declaram: “Eu dava saltos de dez metros de altura e tive tamanha emoção, foi um sentimento fantástico, como se estivesse flutuando, com o se estivesse no ar…”, “Parece-me que este poder é como a eletricidade. É por isso que eu não deixaria ninguém dançar atrás de mim… É uma força que faz você dançar, algo como um choque… você ouve apenas canção e os tambores…”.

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