O Xamã e o Xamanismo

O xamã trabalha no reino da imaginação, e sua perícia nesse domínio em prol da comunidade é reconhecida em todos os registros históricos. “As limitações do tempo e do espaço são transcendidas… Rochas e pedras falam. Os homens transformam-se em animais e o animais em homens. É um mundo repleto de simbolismo arcaico, em que o xamã viaja pela imensidão do universo ao redor da lua, em missões da maior importância para seu povo”. Desde os primórdios da civilização, essas viagens levaram à experiência do Criador, à procura da sabedoria, à cura dos males do corpo.

Não podemos ignorar a sabedoria do xamã. Os xamãs tendem a acreditar que as explicações ocidentais de sua medicina são grosseiramente ofensivas ou chegam aos limites da mais pura tolice, pois caso eles tenham vontade de dar alguma explicação, tendem a ser insatisfatórias para eles, pois elas se baseiam no sobrenatural. Não se deve despojar a medicina xamânica de significado, pretendendo que ela é algo que não é, ou considerando-a como uma forma primitiva e abastarda de ajuda médica e psicológica para especificar nativos ignorantes. Provavelmente, não será muito nocivo chamar de “psicoterapia” aquilo que os xamãs fazem, ou de escapatória para uma personalidade aberrante, ou dizer que, na melhor das hipóteses, eles, xamãs, proporcionam uma base à rede comunitária. Esta qualificação poderia promover boa vontade para com a preservação dessas antigas práticas. No entanto, os caminhos do xamã são, em primeiro lugar e acima de tudo, espirituais. É aqui, como “técnicos do sagrado”, que reside sua perícia e onde seu sucesso é medido pelos critérios de sua própria cultura.

O atual interesse pelas práticas xamânicas, tão difundido e geralmente manifesto como uma reverência à crítica por qualquer coisa que se filie vagamente à cultura nativa, deve refletir, certamente, um anseio por inclusão mais humanística e espiritual na medicina moderna. Poder-se-ia dizer que a Roda Sagrada da civilização ocidental direcionou-se para o norte por um tempo excessivo, tem muito conhecimento, mas pouca sensibilidade.

Xamã é uma palavra derivada do tungus saman. Xamã é o mais antigo profissional do mundo e do qual descendem tanto os médicos quanto os sacerdotes modernos. “O xamã era, originalmente, artista, dançarino, músico, cantor, dramaturgo, intelectual, poeta, bardo, embaixador, conselheiro de chefes e reis, ator e palhaço, curador, prestidigitador, malabarista, meteorologista, artesão, herói cultural, trapaceiro – transformador”. Mircea Eliade, autor de obras antropológicas e teológicas clássicas, reviu a ampla literatura sobre o xamanismo e verificou que os xamãs eram caracterizados como sacerdotes, médicos, mágicos, feiticeiros, exorcistas, líderes políticos, psicólogos e charlatões.

O conceito popular de xamanismo relaciona-se tipicamente com a prática de qualquer tipo de cura não-médica, mental, ou ainda com qualquer outro tipo de terapia relacionando a saúde que não incorpore a medicina ocidental. Os termos feiticeiro e curandeiro são empregados com freqüência, de maneira intercambiável, associados ao xamã, mas isso é um equívoco. Um xamã pode muito bem ter um conhecimento das ervas, de crises ou de tratamento de traumas; mas, no sentido antropológico mais restrito, xamãs são aqueles indivíduos que se distinguem por práticas específicas de êxtase ou estados de consciência. Durante esses estados, eles ascendem ao céu ou descem ao mundo subterrâneo da imaginação. A meta da viagem xamânica é obter poder ou conhecimento para ajudar a comunidade ou, então, para curar, embora a doença e, portanto, a cura, possa ter muito pouca semelhança com aquilo que poderia ser reconhecido como tal na medicina convencional.

O xamanismo é um sistema de cura que compreende técnicas para penetrar e interpretar a paisagem da imaginação que é encontrada durante a viagem ou “vôo mágico”. Há consenso em que a obtenção de um estado de êxtase (ou transe ou estado alterado de consciência) é um aspecto universal da prática xamânica, mas, com certeza, nem todos os extáticos poderiam ser considerados xamãs. Com efeito, o êxtase xamânico tem sido identificado como uma categoria especial e altamente específica de estado alterado, em que se pode entrar e sair à vontade.

Além disso, o xamã é identificado como alguém que tem espíritos guardiões (também denominados, às vezes, animais de poder, espíritos guias, tutelares ou totens), dos quais poder e conhecimento são obtidos. Entretanto, nem todos que alegam possuí-los são xamãs; leigos podem ter espíritos semelhantes, que não lhes conferem poder xamânico; ou eles talvez possuam espíritos secundários ou apenas alguns deles. Embora os espíritos dêem proteção ao leigo, do mesmo modo que ao xamã, seu uso para curar os outros ou para a adivinhação é normalmente domínio apenas do xamã.

O xamã, então, é definido por suas práticas e propósitos; a prática xamânica compreende a capacidade de entrar e sair de um estado especial de consciência, a noção de espírito guardião, com o objetivo de ajudar os outros. O traço mais característico da prática xamânica, para os objetivos deste trabalho, é que os xamãs foram reconhecidos ao longo da história da espécie humana como pessoas que têm, por excelência, a capacidade de curar pela imaginação.

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