Pachamama

“Pachamama, obrigado por tudo que nos oferece.

Mãe que nos nutre e nos alimenta em seu seio,

Ensina-nos a andar pelo seu ventre com beleza e graça.”

Wagner Frota

A Mãe Terra é nossa grande aliada. Os povos andinos a chamam de Pachamama, nossa querida madrezita que nos dá água, alimento e ar. Para os Andinos, Pachamama nos deu o dom da vida e é considerada como a divindade maior do nosso mundo. Ela nos ensinou a amar tudo incondicionalmente através do seu amor maternal, pois através do seu amor ela vela por nós e nos acolhe com seu imenso amor.

Ela é a Mãe da purificação, da limpeza e do perdão. Pachamama significa Mãe Terra. A palavra é de origem quéchua, um língua antiga dos povos andinos anterior aos Inkas. “Pacha” significa solo, terra ou mundo, já “Mama” significa Mãe ou senhora.

Entrar em contato com a natureza ajuda a elevar nossas esperanças e nos dá coragem para viver. Ela nos ensina como nós somos merecedores dessa dádiva, porque somos as crianças da Mãe Terra, independente de raça, religião, ou de cultura. A natureza nos faz viver em unidade com todas as coisas, e é esta unidade que nos coloca em equilíbrio e em paz com tudo. A cada nascimento do sol ou no simples desbrochar de uma pequena flor, passamos a compreender que existe um Grande Mistério no Universo. E são exatamente nestes pequeno milagres do dia a dia que vemos o belo sorriso da nossa Mãe Terra, a Pachamama.

Na primeira vez que estive nas montanhas andinas, tive a graça e o prazer de encontrar com Pachamama ao descer a montanha Ausangate e seguir até o Rio Willcamayu, o rio sagrado dos Inkas. Foi lá, no meio das águas gélidas do rio que ao abrir os meus olhos, pude sentir a vibração da Mãe Terra com seu cabelo castanho-escuro, olhar misterioso e sorriso radiante. Pude sentir seu corpo esbelto, curvilíneo, num perfil luxuriante. A barriguinha côncava abrigava hemisférios erógenos e eróticos, a vi caminhando maravilhosamente revelando a postura perfeita de uma imperatriz. Aquela à minha frente era a Grande Mãe Terra, Pachamama e nela se desvendam todos os mistérios da criação ao receber a semente do Sol e transformá-la. Não é a tôa que os povos andinos a consideram a Deusa da Vida.

Nos Andes ela é adorada em suas diferentes formas: Andenarias, cavernas, montanhas, pastos, rochas e rios. Durante o Império Inka eram celebrados rituais em sua honra para que houvessem boas colheitas.

Em minhas jornadas pelas montanhas andinas, aprendi que o Cosmo e todas as coisas no mundo são um campo de energia. Uma árvore é um campo de energia. Uma montanha é um campo de energia. A pedra. A estrela. Tudo irradia energia, e é composto de filamentos de energia luminosa. Vocês podem imaginar um violão, ou uma harpa que está cheia de cordas invisíveis. Nossos corpos são iguais e preenchidos por filamentos de energia luminosa. Esses filamentos estabelecem comunicação com o infinito.

Quando começamos a jogar com todas as cartas do universo notamos que existem crianças de três mil anos de idade e anciões que ainda são crianças. Somos conectados a outras vidas por milhares de anos de existência no Cosmo. A Realidade não é uma só. Há muitas realidades. A realidade por nós vivida, em sociedade, é a realidade que foi descrita desde que éramos crianças. Mas de repente descobrimos que existem muitas outras realidades. E a mais importante delas é a realidade não ordinária conectada ao mistério da existência. Por exemplo, noite; o que é a noite? Simplesmente o sem espaço? Não! O nome dela é Tuta e ela é a mãe de todas as estrelas. Todas as sementes do Cosmo estão dentro da noite. Ou a lua. Nós falamos que a lua ainda é um satélite. O nome dela é Killa, e ela é o espelho de nosso mistério. A energia feminina da lua trabalha com os odores da noite. Já Pachamama, é a Mãe Cósmica. A expressão da energia cósmica feminina, que trabalha com o sangue, com o nascimento, e a morte.

Se aceitamos a descrição dos filamentos, descobrimos que ainda somos crianças. Descobrimos que estamos sentados no colo da Grande Mãe que é Pachamama. Deixemos de lado por um momento nossa arrogância pessoal, as proteções e estruturas mentais, e sintamos o colo de Pachamama. Esqueçamos de nossa face cultural e tentemos recuperar a primeira face, aquela que temos ao nascer. Essa é nossa melhor face. Recordemos a primeira vez em que vimos a face de Pachamama. Iremos assim sentir e permitir que aquela onda de energia percorra pelo nosso corpo alimentando-nos com a sua força. Uma vez que sintamos Pachamama, começamos a ter uma consciência muito clara do nosso lugar no planeta. Isto é porque trabalhamos com Pachamama, a Mãe Cósmica, a Mãe de todas as Mães.

Em meu próprio caminho, percebi que nossa terra, Pachamama, é maravilhosa. Isto é maravilhoso! Ninguém pode me falar que em todas as constelações e nos milhões de mundos no Cosmo existe um planeta mais maravilhoso que nossa Terra! Eu sei que pode ser uma arrogância pensar assim, que existem outros lugares na galáxia, mas nenhum deles é a nossa Mãe Terra. Mas como vocês podem perceber, estou interessado na sutil asa da borboleta, em todas suas nuances. Estou interessado na respiração da Lhama. No vôo do Beija-Flor. O que pensa o Puma do Condor? O que pensa o Jaguar na floresta? O que pensa a floresta no rio? Esta é a voz da Natureza na qual o chorar de medo é simplesmente falta de amor.

No Caminho Sagrado do Xamanismo, aprendi que a vida de um Xamã é uma vida de serviço. Todo ser vivente no universo tem uma relação para consertar que deve ser descoberta, ser desenvolvida ou ser reconstruída. De algum modo, temos que aprender com Pachamama, a nossa Mãe Terra. Todas as práticas dos Xamãs são modos para curar nossa relação com as forças cósmicas e trazer equilíbrio para nossas vidas, tecendo uma teia de energia com todas as coisas.

O xamanismo é uma responsabilidade espiritual e estética de todos nós. O mundo foi desenvolvido com abuso e exagero. O mundo tecnológico alcançou um nível incrível, bonito, mas produziu exageradamente um desequilíbrio na Mãe Terra, devido à ganância do homem. O grande corpo da natureza constantemente demonstra a reciprocidade dos idiomas do universo e dos espíritos. Esta reciprocidade, especialmente no campo de energia, cria uma harmonia que pode equilibrar a energia coletiva do planeta dentro de uma matriz antiga da ordem universal. Os idiomas formal e cultural criam limites. A essência principal da vida é a Natureza e o idioma é o Amor. Se não há amor, então temos que usar nossa mente, mas ela freqüentemente só nos trará preocupações. Nosso trabalho mais importante é colocar nossa mente no travesseiro e deixar que ela descanse. Esqueçam isto! A mente é um espelho de nosso ego e nos carrega com todos os tipos de reflexões, racionalizações, inseguranças e diálogo interno. É necessário abrir as portas da percepção e escutar com o corpo inteiro.

Desta forma, nosso diálogo interno desaparecerá. Se formos além de nosso diálogo interno e abrirmos as portas à energia do Cosmo e escutarmos o silêncio perceberemos que tudo é povoado por vozes. A primeira voz que ouvimos pode ser o espírito do fogo ou o do vento, e então notaremos que as outras vozes da natureza virão. A árvore, a pedra, a água. E pouco a pouco nossos corpos tomam consciência de que somos uma parte da grande totalidade da energia cósmica. Se nos conectamos com os filamentos do Cosmo, não somos indivíduos separados do resto do Universo. Se conectamos nosso corpo com as pedras, com as árvores, com o céu e com o Cosmo, veremos então que é muito fácil transformar a energia da vida. Imaginem como são insignificantes os problemas cotidianos quando uma pessoa sabe manipular o uso correto de energia.

Os Xamãs Andinos têm um sistema que tendem a não fazer a distinção cartesiana entre assunto e objeto, entre interno e exterior, entre o secular e o sagrado. Assim eles podem realizar os saltos do causais, e são capazes literalmente de pisar fora do tempo linear. Eles não perderam a função sensória do conhecimento, eles percebem, sentem e são capazes de atravessar os cinco sentidos. Eles são capazes de sentir a textura de uma montanha, percebem totalidades que são por definição não lineares. A fluência das percepções sensórias deles é em parte um resultado da relação deles com a Natureza. A interação deles com a Mãe Terra, Pachamama, faz parte do seu ser e de sua existência.

Nós, Guerreiros do Coração, estamos fazendo uma ponte de entrelaçamento através de nosso sistema de crenças e práticas. Não fazemos isto por razões egoístas, mas para conservar o espírito de nossas tradições ancestrais. Nosso propósito não é resolver uma crise particular, mas apresentar ao mundo nova natureza espiritual. Quando eu falo, não é de minha visão pessoal, mas de como o Cosmo é visto pelos Guerreiros do Coração. É uma visão milenar. A mensagem dos Ancestrais Andinos é que as pessoas precisam se reconectar com a matriz do Cosmo, com o espírito de Pachamama, nossa Mãe Terra, com os espíritos das montanhas, os Apus, e com o espírito das estrelas.

Aprendi como nativos andinos, a viver em completo “ayni” com a Natureza, com os homens, e com o Universo. Ayni no dialeto Quéchua quer dizer reciprocidade, ou equilíbrio. Significa ter uma relação síncrona com a Natureza, com os três mundos da cosmologia andina, e com o ego. A vida para os Andinos é um espelho da nossa relação com a Natureza, e “ayni” é caminhar com beleza e amor por toda vida. Também significa pisar com graça e ternura na superfície de nossa verdadeira mãe, Pachamama, a nossa Santa Madre Terra… sentir essa energia nutritiva da Terra pulsando debaixo dos nossos pés, fluindo sempre em nosso Ser e saber que somos amado por ela.

Um dos maiores problemas que vejo no nosso país é o descaso com a Mãe Natureza. Deveria haver no sistema educacional do país, uma matéria que mostrasse às nossas crianças que devemos amar e respeitar a Pachamama, a nossa Mãe Terra. Porém, toda esta riqueza biológica está ameaçada pela expansão desordenada da fronteira agrícola. Há milhares de hectares de pastos abandonados, implementados de forma inadequada. Aumenta a cada dia os desmatamentos. Este é mais uma conseqüência do descaso e talvez desconhecimento de uma política de incentivos que favoreceu a expansão irracional agrícola e o uso não sustentável do solo.

Penso que as queimadas, deveriam ser realizadas a cada sete anos. A natureza é perfeita. No cerrado, a maioria das plantas estão adaptadas ao fogo, até mesmo algumas espécies só germinam quando é realizadas a queimada.

Ainda existem milhares de espécimes que ainda não foram descobertas na nossa flora. Deveria haver uma campanha maciça sobre a importância do nosso solo e dos riscos que as regiões correm. Já existem algumas boas propostas de alternativas econômicas sustentáveis para algumas populações locais, que incluem principalmente o ecoturismo e o extrativismo de algumas espécies de vegetais de alto valor econômico.

Mas para que tudo isso ocorra, devemos aprender a respeitar a Terra. Devemos ir para o meio da Natureza e sentir o abraço da Mãe Terra. Não é a tôa que antigas formas de vida e um movimento ecológico mundial esteja ocorrendo. Cada um de nós tem uma missão neste movimento. Um movimento no qual diversas tribos, de cores diferentes, se unem para fazer parte de um grande organismo e trabalhar para curar o nosso mundo. Um mundo repleto de mistério que é expresso ao ouvirmos a voz dos ventos.

Para mim não existe nenhum planeta mais bonito do que o nosso, mas para que ele continue assim, Pachamama tem que ser respeitada e amada como mãe que ela é. Aos poucos, a ganância de muitos, a exploração capitalista de recursos naturais e o progresso desordenado estão minando a vida de nossa Mãe. Como um Guerreiro do Coração, filho da Mãe Terra, procuro lutar para que isso não aconteça. Por isso procuro reeducar os que estão a minha volta no sentido de amar a sua casa, seu habitat, mostrando através dos meus atos a respeitar o ambiente em que vivemos. Percorrendo o Caminho Sagrado do Xamanismo, pude aprender com as tradições ancestrais nativas que eles amavam Pachamama com suas belezas naturais procurando manter tudo num equilíbrio perfeito para que não perdêssemos essa beleza.

Não podemos conceber a idéia de que existam animais e plantas em extinção. Isso não pode ocorrer. Sempre houve um equilíbrio íntimo entre os homens e a Mãe Natureza. Nos Andes, aprendi uma palavra que traduz a Arte Sagrada da Reciprocidade, Ayni, pois tudo que fazemos à Mãe Terra, recebemos na mesma proporção. Baseado neste equilíbrio é que os povos andinos sempre realizam suas oferendas a Pachamama. Creio que não haveria a ameaça de extinção, se os homens aprendessem com essa grande sabedoria milenar. Podemos ver esse equilíbrio em outras culturas que são consideradas pela civilização ocidental como “primitivas”, mas será que eles não estão num grau mais evoluído do que nossa Sociedade Moderna?

Amo a Mãe Terra e tudo o que me rodeia. É na Natureza que encontro respostas para os meus anseios. Sempre foi assim. Lembro-me sempre da árvore que ficava perto da minha residência, quando eu era criança, e que sempre me recebia em seus galhos para conversar e brincarmos juntos. É inconcebível que se gastem milhões tentando alcançar outros planetas quando não conseguimos resolver os problemas do planeta Terra. Dentro do xamanismo, aprendi que para ser um curador tenho que primeiro curar a mim mesmo. E para estar curado e de bem comigo mesmo, tenho que estar equilibrado. O mesmo vale para nossa relação com a Natureza.

Deve haver harmonia entre nós e Pachamama. Para mim, tudo que existe no Universo está interligado, sendo assim, o que fazemos contra a Mãe Terra, é um mal que cometemos contra nós mesmos e a nossa comunidade. Assim que comecei meus estudos místicos, conheci um velho adágio que dizia: “Como é em cima é embaixo”, ou seja, o Macrocosmo e o Microcosmo estão relacionados entre si. Para os povos nativos a Terra é Sagrada e procuram respeitá-la, tirando o absolutamente necessário, e sempre deixando algo em troca. A cada dia estou mais certo de que devemos seguir esta filosofia de vida, para que no futuro as nossas crianças possam usufruir desta Terra Sagrada que chamamos de Mãe.

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