Ritos e símbolos

Os rituais e símbolos xamânicos representam uma das sagas mais fascinantes sobre como os seres humanos tentam relacionar-se com o sobrenatural para criar uma condição de saúde no sentido mais amplo. Meu objetivo, não é apresentar um compêndio da prática xamânica, pois isso já foi feito, e muito bem, por outros autores. Tentarei apenas resumir e dar alguns exemplos.

Podemos destacar sobre rituais e práticas xamânica quatro questões. A primeira, é que os rituais e símbolos de cura têm um significado muito diferente e, ainda assim, muito real, na realidade não-ordinária ou estado xamânico de consciência. A segunda questão é que muitos rituais e símbolos são culturalmente determinados e só falam às necessidades de uma população específica. A terceira é que há símbolos e rituais análogos em todas as partes do mundo, indicando uma espécie de inconsciente coletivo. Finalmente, e da maior importância, que embora esses instrumentos de trabalho não possam de modo algum ser separados ou subtraídos do conceito de xamanismo, não são os instrumentos e rituais que curam, mas o poder a eles conferido pela imaginação.

Como os xamãs realizam seu trabalho de cura em um estado diverso do estado mental desperto, caracterizado pela onda cerebral beta e pelo pensamento linear, eles naturalmente devem adotar, em primeiro lugar, modos satisfatórios de sair dessa condição. Isso constitui propriamente o início do ritual de cura, embora a cena do ritual possa ter exigido vários dias de preparação. Virtualmente, tudo que foi usado para realizar um estado alterado de consciência provavelmente foi incluído em um ou outro ritual xamânico, sendo a maioria das técnicas meios para a hipo ou hiperestimulação dos vários sistemas sensoriais. Alguns exemplos incluem:

1. Condições de intensificação da temperatura. A Sauna Sagrada é um meio comumente usado para induzir um estado alterado de consciência. Uma cabana típica pode consistir em uma armação feita de ramos de salgueiro, coberta com uma lona encerada ou qualquer outro material pesado que retenha calor. Pedras são aquecidas durante horas em fogo alto e, no momento em que a prática vai começar, elas são colocadas no centro da cabana. Em geral, há um modo prescrito para entrar e sair da sauna, bem como canções e cantilenas de súplica, agradecimento e afirmação da conexão entre todos os aspectos materiais e imateriais do universo. O calor é aumentado periodicamente, jogando-se água sobre as pedras quentes. Ervas como a sálvia, cedro, sweet Grass (uma espécie de erva-doce) podem ser queimadas por seu aroma especial e significado sagrado.

Uma sauna, sem o ritual; é apenas quente; mas com o ritual, ela pode induzir um efeito sistêmico que envolve uma rápida aceleração dos batimentos cardíacos, náusea, tontura e até uma síncope (desmaio), sinais indicativos da condição que a medicina denomina insolação. Confesso, que por algumas vezes, eu me concentrei mais em sobreviver àquela provação do que em ter visões, mais em impedir que as lufadas de ar quente que eu inalava continuassem queimando minhas narinas, pulmões e cabelos. Mas na maioria das vezes me vi rodeado dos Ancestrais que compartilharam comigo ensinamentos e práticas de cura que eu desconhecia. Das dezenas de Sauna Sagrada que participei, sempre sai renovado. O ritual da sauna tem também um sólido alicerce nas tradições européias, e os escandinavos empregam-no há séculos para promover a saúde do corpo e da mente. É inquestionável que a reação fisiológica a um estímulo tão intenso é parcialmente função do aprendizado.

Do ponto de vista físico, há um componente bioquímico – das altas temperaturas corporais febris, que refletem a reação natural às toxinas – relacionado com o sistema imunológico em ação. As elevadas temperaturas da sauna, artificialmente provocadas, podem imitar essa atividade ou induzi-la (como em um exercício aeróbico prolongado). Além do mais, a sauna podem atuar como procedimento esterilizador, eliminando bactérias, vírus e outros organismos que proliferam à temperatura do corpo, mas sensíveis ao calor. O crescimento de tumores também pode ser inibido quando a temperatura normal do corpo é significativamente elevada. O calor aplicado em tumores vem constituindo um tratamento experimental para o câncer nos Estados Unidos e Canadá. Aparentemente, o calor não é apenas eficaz para determinar células cancerosas, mas também torna as células cancerosas sobreviventes mais vulneráveis à radiação e à quimioterapia. Em todo caso, tomar muita água e, em seguida, fazer sauna resulta em sensações desintoxicação e desanuviamento da mente. O próprio calor pode ajudar a criar um estado alterado de consciência e promove a intensa concentração necessária à cura.

Além de recursos externos como a sauna, a capacidade de autogerar calor interno é tipicamente relatada como necessária à cura xamânica. De acordo com um xamã esquimó, “todo xamã verdadeiro tem de sentir uma iluminação em seu corpo, no interior de sua cabeça ou em seu cérebro, algo que reluz como fogo, que lha dá o poder de ver com os olhos fechados na escuridão, nas coisas ocultas ou no futuro, ou nos segredos de outro homem”. A concordância com essa premissa encontra-se também nos iogues tibetanos que declaram ter a mesma habilidade do xamã. Ao que se diz, os iogues são capazes de gerar um calor psíquico que os torna impermeáveis às temperaturas extremas, até mesmo a uma exposição prolongada à neve vestindo apenas uma camisa molhada com água gelada.

Com o intuito de criar esse estado especial, os iogues recorrem à imagem mental, que inclui visualizar o sol em várias partes de seus corpos e o mundo sendo impregnado pelo fogo. Dizem que, em virtude da prática desses exercícios por longo período, o iogue tem a capacidade de conhecer os eventos passados, presentes e futuros.

Ao que tudo indica, os iogues e os xamãs descobriam um meio de continuar indefinidamente a troca do calor, e isso significa que eles têm a capacidade de regenerar por muito tempo as substâncias químicas envolvidas. Só podemos concluir que há uma poderosa capacidade de auto-regular a resposta térmica e acrescentar que aqueles que envolvem com essas questões consideram o calor interior um caminho para o conhecimento.

2. Privação física ou sensorial. A privação física assume formas e a experiência mística a que ela induz não é uma característica unicamente das culturas xamânicas. Suponho que é uma infelicidade, para nós, que vivemos em circunstâncias em que não há privação, que esse conforto físico não gere misticismo. Por outro lado, o aumento do poder da mente de criar visões em circunstâncias de privação tem sido freqüentemente visto como o único fator que tornou a vida tolerável nos campos de concentração nazistas. “Os sonhos”, contam os sobreviventes, “aqueles sonhos maravilhosos”.

É típico que os xamãs jejuem antes de realizar um trabalho difícil. O jejum pode incluir abstenção de comida, sal e até água. Outras privações incluem ficar sem dormir por várias noites, o que, aliás, pode ocorrer de qualquer modo no processo de um ritual prolongado. As xamãs européias, as bruxas, eram acusadas de comer apenas beterraba, raízes e frutos como amora, morango e framboesa (isto é, evitavam proteína animal e derivados do leite) para ajudá-las em sua viagem xamânica. Os xamãs Huichol tradicionalmente jejuavam durante os vinte e um dias de sua viagem à terra do peiote, seu lugar de poder. Em algumas culturas, aquele a ser curado também pode ser aconselhado a abster-se de comida pelo período de alguns dias.

A abstinência sexual é universalmente usada param alterar os planos de consciência. Essa energia tão vital é redirecionada para a cura ou para produzir estados de bem-aventurança, como na prática oriental da kundalini. O xamã Jívaro noviço, por exemplo, deve abster-se de sexo por pelo menos cinco meses, para obter poder suficiente para curar, e por um ano inteiro, para torna-se realmente eficiente. No cristianismo, entretanto, o celibato tem origem muito diversa e acreditava-se que protegia os santos padres dos remanescentes do pecado original e assim aumentaria sua divindade.

O estado mental xamânico é intensificado durante a privação sensorial e física. A maior parte do trabalho cerimonial é realizada no escuro ou com os olhos vendados, para isolar da realidade cotidiana. Procura-se as visões permanecendo isolado em cavernas profundas que na paisagem monótona da tundra ou do deserto. A privação sensorial pode propiciar insights no xamanismo. A monotonia constitui a base de muitas formas de xamanismo: cânticos monótonos, percussão de tambores, música, dança com movimentos rítmicos. Em outros momentos, pode haver restrição do movimento, fitar chamas ou escuridão.

Em suma, os xamãs recorrem a vários meios de privação culturalmente sancionados para encontrar seu caminho para o estado xamânico de consciência. Seus métodos têm potencial para provocar significativas alterações físicas e mentais, induzindo desequilíbrio dos eletrólitos, hipoglicemia, desidratação, insônia e perda de energia sensorial. Em resumo, os xamãs parecem dispostos a impelir seus corpos aos limites fisiológicos, para despertar a mente. Aquilo que o mundo moderno considera uma ameaça perigosa para a saúde, até para a própria vida, é visto pelos xamãs como caminho para o conhecimento.

3. O uso de plantas sagradas ou mestras. Substâncias alucinógenas são empregadas em diversas tradições xamânicas de cura como o caminho mais rápido para o encontro com o sobrenatural; é importante, entretanto, compreender que as plantas não são essenciais ao trabalho xamânico. Para mim a utilização das plantas mestras são apenas um passo intermediário, pois ao atingirmos um certo grau de poder não necessitamos delas. O tema cativou a imaginação dos antropólogos, nos anos 1960, quando houve um grande aumento da conscientização sobre as drogas nos Estados Unidos. A volumosa literatura disponível inclui: o papel dos alucinógenos nas tradições xamânicas da América do Sul, da América do Norte, Ásia e da Europa.

Carlos Castaneda também descreveu em amplos detalhes o uso de plantas de poder psicotrópico como ajuda visionária, enquanto esteve sob a orientação de Don Juan, o xamã Iaque. Nos círculos científicos, há diversas reações quando à autenticidade e significado das experiências de Castaneda, mas concorda-se que, mesmo no caso de ser fabulação, ainda assim são extremamente representativas de encontros transculturais com o sobrenatural.

A maioria das experiências de Castaneda não se encaixa propriamente na tradição xamânica de cura, mas deve ser classificada como feitiçaria ou busca do poder. No entanto, suas viagens para encontrar a passagem “entre os mundos” envolvem o emprego de técnicas da imaginação idênticas às dos xamãs. Don Juan guiou Castaneda em episódios posteriores ao uso da datura, do cogumelo psilocibe e do peiote. Mas recorreu às drogas só depois que ficou evidente que o estado de consciência desperto de Castaneda era excessivamente restrito para expandir-se á realidade mística, mágica, não-ordinária. Castaneda declarou que sempre questionaria a validade de suas experiências sob a influência das plantas psicotrópicas, e considerava que o estágio final da expansão da consciência, a percepção outra e extraordinária de ver o mundo sem interpretações, não era possível com drogas.

Por outro lado, como há uma relação entre tradição xamânica e uso das plantas mestras, devemos levar em consideração seu uso e, certamente, qual papel podem elas ter no renascimento do xamanismo. Em primeiro lugar, como foi mencionado, elas são um meio rápido para alterar a consciência. Em segundo lugar, nas sociedades sem escrita, morte e sonhos prenunciam outros estados, e a resposta a eles, o maior dos mistérios, eram mais provavelmente, procurada na experiência e não no discurso intelectual. Os notórios efeitos psicotrópicos das plantas mestras tais como perda dos limites do eu, intensificação da percepção do entrelaçamento de todas as coisas e um senso de reverência e temor, deram aos xamãs o insight e o reconhecimento, pelo qual ansiavam, do mundo além dos sentidos. Por causa dessas propriedades, as plantas são universalmente denominadas “remédios” e referidas como “sagradas”. É impensável usá-la com propósitos recreativos.

Ao contrário daqueles com algumas convicções místicas, os xamãs não procuram a iluminação apenas para si, mas com o objetivo explícito de ajudar a comunidade. Seu caminho é circular, isto é, eles transitam para dentro e para fora de outros reinos, mas depois retornam, com conhecimento e poder. Sempre que as plantas mestras são usadas nas artes da cura, seus efeitos devem ser sutis o suficiente para permitir que o xamã proceda assim. O trabalho ritual não pode ser realizado em um estado letárgico de alheamento ou quando o controle é abandonado por causa dos efeitos narcóticos. Os xamãs ingerem quantidades apropriadas de plantas para que possam lembrar da experiência, após seu término, e para que elas lhes proporcionem suficiente percepção para poderem reconhecer as múltiplas realidades que estão encontrando. Por assim dizer, um dos pés fica plantado na realidade ordinária.

A natureza forneceu um suprimento abundante desse remédio, especialmente nas Américas. O uso do cipó banisterisopsis (geralmente chamado yagé ou ayahuasca) é particularmente generalizado na América do Sul e Central. O processo visionário dos índios Sharananua, da Amazônia peruana, é particularmente interessante, do ponto de vista da capacidade da imaginação para diagnosticar e curar. O xamã pede aos pacientes seriamente enfermos que descrevam seus sintomas e sonhos. Os pacientes costumam falar de imagens que coincidem com as categorias dos cantos de cura que o xamã aprendeu durante seu longo aprendizado (cantar e fazer invocações é um complemento importante para a ayahuasca, já que segundo eles, sem palavras, surgem apenas visões de serpentes). As imagens oníricas relatadas são, em geral, simples: o sol, uma ave, alguém subindo uma montanha.

No começo da noite da cerimônia de cura, o xamã e outros homens da tribo bebem a ayahuasca; os homens entoam cânticos, o xamã entoa cantigas apropriadas e tem uma visão da imagem do sonho do paciente. O xamã descreve-a com grande e intensa clareza. Eis o que diz Siskind: “Compartilhar símbolos entre pelo menos duas pessoas é a base para qualquer sistema de comunicação. O simbolismo do sonho e da visão entre os Sharanahua pode não pressupor uma relação necessária entre significado e símbolo, mas tampouco se é totalmente livre para sonhos e alucinações idiossincráticas. Xamã e paciente se restringem aos limites dos símbolos e sintomas classificados nas canções de cura”. A seleção dos símbolos deve coincidir com o sistema de símbolos comum à cultura. “Sim, há símbolos em abundância e uma redundância deles, sobretudo no que se refere às graves enfermidades comuns, como a diarréia sanguinolenta, a dor de estômago e a gripe com febre alta, para que os sentimentos individuais sejam expressos pelo paciente e captados pelo xamã”.

O uso do peiote é também uma tradição que se expande na América e acredita-se que ela abra as portas da consciência. “Há em nossas mentes uma porta, que habitualmente permanece oculta e secreta, até o momento de nossa morte. A expressão Huichol para isso é nierica. A nierica é uma passagem ou interface cósmica entre as chamadas realidades ordinárias e não-ordinárias. É uma vida de acesso e, ao mesmo tempo, uma barreira entre mundos”.

Os Huicholes usam o cacto colhido na Terra Sagrada do Peiote para facilitar a entrada na nierica. A tradição xamânica Huichol tende a uma natureza mais transpessoal, enquanto a Igreja Nativa Americana, notável confederação de várias tribos indígenas, usa o peiote em um cerimonial e humanista. (A Igreja Nativa Americana, fundada no México há cerca de 150 anos, foi elaborada sobretudo pelas tribos Kiowa dos Estados Unidos. Seus membros optaram por trabalhar em problemas do mundo atual, em oposição às viagens xamânicas).

Espécies de datura e cogumelos com propriedades alucinógenas são freqüentemente usadas pelos xamãs americanos e do Velho Mundo. O cogumelo confirmou-se particularmente estimulante tanto para antropólogos ou não antropólogos, que se aproximaram furtivamente do Soma legendário e identificaram nele os cogumelos agáricos da Europa e da Ásia, e provaram a Carne dos Deuses, os cogumelos psilocibes do México, amplamente consumidos neste país. Os Mazatecas afirmam que os cogumelos falam. Se você perguntar a um xamã a onde vem seu imaginário, ele provavelmente responderá: “Não fui eu que falei, foram os cogumelos…” A função dos xamãs que os comem é falar, são os oradores que entoam cânticos a verdade, eles são os poetas de seu povo, os doutores da palavra, são eles que dizem aquilo que está errado e como remediá-lo, são os videntes e os oráculos, possuídos pela voz.

Parte da cantiga Mazateca de uma curandeira assim reza: “Mulher dos remédios e curadora, que caminha com sua aparência e sua alma… é a mulher do remédio e da medicina. Ela é a mulher que fala. A mulher que une tudo. Mulher doutora. Mulher das palavras. Curadora dos problemas”. E assim ela canta, falando de um mundo comum a todos, procurando os caminhos do significado, curando na esteira da transformação química provocada pelo cogumelo mágico.

Na Europa, as bruxas, que Harner e Eliade identificaram como pessoas envolvidas com práticas xamânicas, também transformaram seu estado de consciência com substâncias alucinógenas. Lá, a generosidade da natureza proporcionou uma seleção psicodélica de impacto muito mais considerável do que os delicados cogumelos da curandeira Mazateca. Os mortíferos meimendro negro (beladona), raiz da mandrágora e datura foram combinados em várias receitas, formando um “óleo que permite voar” e “… em certos dias ou noites elas untam um pau e nele cavalgam até um lugar combinado ou untam-se nas axilas ou em outros lugares cobertos de pêlos”.

O elevado conteúdo de atropina existente na farmacopéia do xamã europeu garantia uma rápida absorção através da pele, sobretudo do sensível tecido vaginal. Um cabo de vassoura, assim untado, tornou-se o corcel das viagens, e a perigosa estrada da droga levava freqüentemente a muitos dias de alheamento, seguidos pela amnésia. Por isso Harner não acreditava que as bruxas usassem as plantas em rituais de cura, mas apenas para fazer certo contato com o sobrenatural.

É preciso avaliar com cautela o aspecto curativo das plantas sagradas. O moderno mundo da medicina ficaria chocado ao pensar em um curador que ingere substâncias químicas poderosas e perigosas, mesmo porque os mesmos estados mentais podem ser obtidos por meios não químicos. Mas não há paralelo entre isso e ministrar ao paciente poderosas e perigosas substâncias químicas, enquanto acumulam-se as evidências de que a própria imaginação pode criar qualquer mudança física concebível? As muletas da química, em ambas as instâncias, são apenas etapas evolutivas no aprendizado do uso das forças da consciência, objetivando a cura.

Gostaria de fazer uma observação sobre esse tema. Quando o caminho sobrenatural é circular, como no caso dos xamãs que vão a esses planos e retornam ao trabalho de cura no mundo, aqueles que o percorrem trazem de volta algo da história de suas visões. É nisso que consiste, precisamente, a bela arte sagrada das culturas xamânicas. Os quadros tecidos, os trabalhos com miçangas e as pinturas em areia são tentativas de compartilhar o reino do espírito utilizando meios deste mundo. As experiências visionárias também foram preservadas na sacola de medicina (medicine bag), ou sacolas de poder do xamã: penas, miçangas, esqueletos de animais, pedras, conchas, plantas secas e até mesmo bugigangas européias encontraram espaço nas trouxas sagradas dos índios norte-americanos. Algumas vezes, os objetos representam dádivas especiais ao xamã no estado xamânico de consciência. Grossinger afirma que o gosto por quinquilharias, que o homem branco nunca apreciou verdadeiramente, vem dos paramentos simbólicos da experiência visionária. “Várias gerações após a visão, a sacola de remédios é uma técnica objetiva de vários tipos. Nela estão guardadas cantigas, ervas, amuletos, histórias, tudo sintonizado com a revelação original e acrescentados por aqueles que usaram o remédio”.

As drogas, tal como eram usadas na tradição espiritual, constituía um remédio, o melhor que o mundo conheceu por milhares de anos. Mas, para uma cultura como a nossa em cujas instituições alienou-se progressivamente do mundo espiritual, uma cultura que tentou o mais que pôde separar a mente do corpo, as drogas trazem apenas um sabor torturante de misticismo, que nosso mito cultural não pode explicar e não incorporará.

4. Auxílio auditivo para estados alternados. A estimulação repetida e monótona de qualquer sentido modifica o foco da consciência. Para o xamã, a escolha habitual do estímulo sonoro vem dos tambores, maracás, baquetas ou outros instrumentos de percussão. Outros sons, tais como zumbidos muito agudos produzidos por assovios de cerâmica, encontrados no Peru e na América Central, também podem ter sido usados no trabalho xamânico. É claro que as cantilenas e cantos também são importantes para as cerimônias de cura em todas as culturas.

Normalmente, os cantos são fonemas que se encadeiam. Não há para eles uma interpretação imediata ou uma tradução disponível na linguagem da realidade ordinária, apenas nos estados sensoriais. Elas podem servir para ultrapassar a parte lógica de nosso cérebro, responsável pela linguagem, e tocar a intuição. Muitos católicos dizem que a missa perdeu grande parte de seu impacto quando deixou de ser rezada em latim, pois quando não sabiam o significado das palavras, se comunicavam mais diretamente com Deus.

Os cantos podem ter vindo à consciência do xamã na solidão da busca da visão, podem ser uma dádiva de uma águia que passava ou podem ter sido ouvidas em sonhos. Podem também ser cantos tradicionais de cura ou de poder, cuja fonte original é desconhecida. Eles têm um ritmo pulsante que, a exemplo das batidas do tambor, sincronizam-se com as funções e movimentos do corpo. Os xamãs também podem usá-los com significado diferente. Os cantos do xamã Navajo, por exemplo, são tão inacreditavelmente complicados que um autor achou que poderiam equivaler a uma recitação completa do Novo Testamento, de memória. Mais freqüentemente, os cantos servem para expulsar as doenças, e não para entrar no estado xamânico de consciência.

O tambor do xamã é o meio mais importante para entrar em outras realidades, e constitui uma das características mais universais do xamanismo. O tambor pode ser feito de quase tudo que provoque um tom razoavelmente baixo. De acordo com Drury, ele é feito com a madeira da Árvore do Mundo e o couro, algumas vezes, está diretamente ligado ao animal que o xamã usa para encontrar o lugar do espírito.

É maravilhosa a percussão dos tambores de água, que são feitos com velhas panelas de metal parcialmente cheia de água e envolvidas na pele de um animal, processo que exige tempo e deve ser continuamente repetido durante longos cerimoniais.

O som de instrumentos de percussão e de maracás é um método há muito empregado para alterar a consciência e acreditar-se que tenha um efeito analgésico ou entorpecedor. “Em um nível contemplativo”, afirma Drury, “o som do tambor é como um foco para o xamã. Ele cria uma atmosfera de concentração e de determinação, capacitando-o a mergulhar fundo no transe enquanto dirige sua atenção para a viagem interior do espírito. Vários fatos fisiológicos apoiam o papel do som. Em primeiro lugar, o trato auditivo passa diretamente para o sistema ativador reticular (SAR) do tronco cerebral, que é uma “rede de nervos” compacta e coordena as informações sensoriais e o tônus motor, alertando o córtex para a informação que está chegando. O som, percorrendo essa via, pode ativar todo o cérebro. Teoricamente, um bombardeio neuronal forte e repetitivo nas vias auditivas e, finalmente, no córtex cerebral, como o experimento ao som dos tambores, poderia concorrer com êxito para consciência cognitiva. Outros estímulos sensoriais da realidade ordinária, inclusive a dor, poderiam ser assim evitados ou filtrados. Então, a mente estaria livre para expandir-se para outros Planos.

Como a Mirella Faur explica: “o ritmo do tambor no compasso certo alinha as ondas cerebrais com a pulsação da terra. As ondas theta de quatro a oito ciclos por segundo favorecem as percepções sutis, os sonhos e a jornada xamânica”. Podemos ver então, que os sons fortes, tais como os do tambor, principalmente no ritmo do coração (setenta e duas batidas por minuto) que são muito mais lentas do que o padrão teta, tem a capacidade de ativar todos os centros cerebrais, estimulados subjetivamente através do toque do tambor do xamã (no estado comum de consciência) nos levando ao estado xamânico de consciência.

Pesquisas sobre meditação indicam que o estímulo auditivo não precisa ser exterior, apenas imaginado, para que se efetue uma alteração fisiológica significativa. A meditação transcendental, o relaxamento e outras adaptações do Haja Yoga incluem imaginar uma palavra ou som (ou mantra) muitas e muitas vezes. Poderíamos chamar isso de canto imaginário. Foram notados benefícios e reações fisiológicas, que incluem redução dos batimentos cardíacos, da pressão sangüínea e da tensão muscular, e um aumento das atividades alfa e teta nas ondas cerebrais. Tais métodos foram altamente elogiados por sua importância no controle do estresse e por introduzir um “estado hipometabólico desperto”, que pode restaurar o corpo para um confortável e saudável equilíbrio homeostático.

5. Aliados espirituais. O último aspecto da imaginação que citaremos é uma das características mais marcantes do xamanismo: os aliados espirituais. São formas espirituais, habitualmente animais, que protegem os xamãs em um trabalho perigoso e que estes proclamam como fonte de seu conhecimento. Essas formas são as professoras da escola médica do mundo espiritual. Para o xamã japonês elas podem ter a forma exaltada de uma transformação do Buda. Um esquimó considerado um dos grandes xamãs de seu tempo, contava com nada menos de sete espíritos, um escorpião do mar, uma orca, uma foca, um cachorro preto sem orelhas e espíritos de três pessoas falecidas. Nas tribos indígenas dos Estados Unidos, os espíritos podem ser animais com um significado cultural especial, ursos, águias, lobos, entre tantos outros.

Os cervos são universalmente associados ao trabalho xamânico. Na Sibéria, renas verdadeiras compartilhavam com o xamã as viagens com cogumelo agárico. No Irã e na China, e os chifres de cervos ainda são apreciados afrodisíaco. Acreditam que o espírito do cervo espalhe os botões do peiote sagrado, como pista para guiar os xamãs em seu trajeto sobrenatural, de acordo com os mitos dos Huicholes. Parece que até mesmo com épocas pré-históricas, os cervos tinham um significado de cura, de acordo com representações artísticas homem/cervo, datados do início da história.

Nem sempre os espíritos aliados têm de ser animais. Às vezes, eles se metamorfoseiam em seres humanos. Um antigo relato de uma xamã descreve um guia que adota a forma de uma jovem que lhe diz com quem ela deveria se casar na vida real, dando-lhe instruções sobre como cuidar do marido. O próprio guia gerou dois filhos na xamã, que ela mais tarde levou para o outro mundo.

Os curadores podem ter como guias pessoas que existirem realmente na terra, em determinada época. Krippner e Villoldo, em seu livro Realms of Healing, escrevem sobre dona Pachita, “médium cirurgiã” mexicana, cujo guia é Cuahutemoc, o grande príncipe Asteca, e sobre Arigó, um curador brasileiro cujo guia era o “Dr. Fritz”, médico alemão presente em suas visões desde a juventude. Pode-se inquirir se esses dois exemplos se encaixam em uma verdadeira definição de xamanismo; mas não há dúvida de que guias imaginários são usados com freqüência na prática da cura tradicional.

Embora as circunstâncias variem, acredita-se que os espíritos estão sempre por perto, embora irreconhecíveis para seus iniciados terrenos. O xamã não apenas tem aliados excepcionalmente poderoso, mas pode permanecer em comunicação com eles, e isso o diferencia dos leigos, que também podem ter espíritos auxiliares. O xamã é escolhido pelos espíritos após um período tumultuado que, dependendo do ponto de vista, poderia ser classificado como “crise psicológica aguda, verdadeira experiência religiosa mística, doença física ou psicose”.

“A possessão pelo espírito”, como é descrita na literatura antropológica, sobre o xamanismo, deve ser cuidadosamente diferenciada da possessão demoníaca. Os espíritos não induzem o xamã a praticar maus atos: na verdade, são mestres. Os períodos de desconforto durante os quais, segundo dizem, os espíritos “possuem” uma pessoa, devem ser uma experiência necessária de aprendizado para aqueles que têm vocação para a cura. Meu amigo Alberto Villoldo, ao rever as opiniões sobre esse assunto, concluiu que “…muito do que é sumariamente tachado de ‘possessão’ por observadores experientes, pode ser, para o xamã, uma experiência visionária desejada”.

Com os instrumentos da ciência, agora é possível analisar a utilização de espíritos-guias e deduzir que há razões perfeitamente sadias e aceitáveis para quaisquer verdades resultantes da comunicação com os espíritos. Se os espíritos simbolizam apenas a intuição, então a comunicação seria algo que muito se assemelharia ao lado esquerdo do cérebro perguntando ao lado direito: “O que está acontecendo?” e os xamãs seriam os indivíduos que melhor conseguiriam combinar lógica e intuição. No entanto, no xamanismo, os seres humanos estão naturalmente em comunicação com animais, espíritos e até com pedras, pois são unos na grande e unitária ordem das coisas. Os xamãs são aqueles capazes de sentir agudamente e mover-se na trama dos universos, aqueles que, no caminho da cura, são guiados por fontes de sabedoria, que se manifestam como espíritos-guia. As qualificações do xamã se baseiam, inegavelmente, em sua demonstração de uma imaginação vívida e capacidade para manter o controle em uma situação, independentemente de onde provenha sua informação.

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