Sacrifícios Ancestrais

Visitando a Península de Yucatan podemos ver diversas Estelas, Pirâmides e outras obras dos Maias, mas especificamente uma delas nos chama atenção, um vaso que representa uma das diversas versões do momento da criação do Universo que os Maias “imaginavam”.

Neste vaso pode-se ver seis deuses nus agachados simultaneamente sobre tigelas repleta de tiras de papel, no intemporal Vácuo do Outro Mundo. Sob seus pés, juntavam-se palavras, vindas do éter, para criar um ondulante chão de hieróglifos. Mais atrás, monstruosas aparições sobrenaturais vibram como cetros de reatores nucleares, símbolos irradiantes para lugares do Outro Mundo que só existem na imaginação do indizível Algo ou Alguém que lhes concede uma realidade emprestada.

Expressões de espanto e horror estão representadas nos rostos das divindades reunidas. Dá para observar as penas de seus adornos de cabeças emplumados estremecendo, quando eles jogam a cabeça para trás, preparando-se para o temível momento. Suas bocas abrem-se, enquanto eles erguem os terríveis instrumentos de auto-sacrifício acima de sua cabeça. Logo em seguida, simultaneamente, enterram os cravos entalhados e afiados nos pênis. Seu sangue sacro respinga o Vácuo. O relâmpago estala e a total escuridão do infinito oceano do Outro Mundo subitamente emite um vermelho elétrico. Do fundo do néon, os deuses saltam para a luz. A criação do mundo começou!

Para os Maias, de uma forma ou de outra, o Universo e a vida humana, são os produtos do impetuoso amor de um Ser Divino, cujo enlevo de sangue havia alucinado os próprios deuses criadores da existência. Esse amor impetuoso era tão intenso que transformara o nada em algo e, mediante o sofrimento auto-infligido, acionara a ressurreição da vida do abismo da morte eterna.

É possível encontrarmos em diversas outras tradições nativas, esse auto-sacrifício do Ser Divino fornecendo a força vital que criou, sustentou e eternamente recriou o Universo e os seres humanos. De sua parte, os seres humanos eram obrigados a participar desse sacrifício divino original, repetindo-o em seus rituais de auto-sacríficio, mantendo assim a energia criadora do Ser Divino circulando por todos os níveis da realidade. No processo, a alma era autorizada a se envolver em atos sagrados de co-criação, a “dar à luz” deuses no plano da Terra e alcançar uma unidade com o Ser Divino que lhe garantiria a sobrevivência após a morte.

Os Maias realizavam a “sangria” em diversas ocasiões, mas eles guardavam as formas mais impressionantes de “sangria” para acontecimentos públicos, importantes festas “religiosas” e para criação de obras de arte. Preparavam-se para atingir os estados xamânicos de consciência, que eram fundamentais para esses rituais, isolando-se, jejuando, abstendo-se de sexo e ingerindo plantas psicotrópicas, tais como o Balche, peiote e sementes de ipoméia. Então se perfuravam com cravos de sílex ou obsidiana, ou com espinha de arraia, todos muito bem ornamentados. Esses “sangradores” eram seres divinos, com personalidade e vontade próprias. Todos eles eram manifestações dos “sangradores” sobrenaturais originais, que se haviam materializado nas mãos dos deuses, proveniente do campo de energia do Outro Mundo, momento antes do terrível ritual de criação.

Após as feridas serem abertas, eles inclinavam-se sobre pratos de oferendas com tiras de papel. Após os papéis ficarem impregnados de sangue, eles eram incendiados. Então a fumaça sagrada que se desprendia desses pratos de oferenda formava nuvens da Essência Vital, Ch’ulel, materializada. As vezes, a fumaça transformavam-se em placentas sanguíneas, por meio dos quais os deuses podiam nascer neste mundo. Essa nuvem era o mecanismo que permitia aos xamãs, deuses e antepassados divinizados entrar e sair das diversas dimensões da Realidade Sagrada.

Não era necessário que o sangue fosse tirado somente do pênis, também poderia ser tirado dos braços, coxas e mãos. Mas as fontes mais sagradas juntamente com o pênis eram as orelhas e a línguas. Os reis-xamãs, escribas, artistas e outros Maias abriam as orelhas a fim de ouvir os oráculos e revelações dos deuses. Eles abriam a língua para conseguirem falar o que haviam escutado. E abriam o pênis a fim de participar da divina criação do cosmo, para recriar as próprias vidas e as vidas de seus reinos e de seu povo.

Alguns de nós que fomos educados nas tradições judaico-cristãs podemos ficam nauseados com a importância fundamental que os Maias atribuíam aos rituais de sangue, como também os Inkas, os Lakotas e tanto outros, mas como salientaram estudiosos da religião Mircea Eliade e Joseph Campbell, no cerne de todas as tradições espirituais existem um sacrifício primitivo. O cristianismo flutua no “sangue do Cordeiro” que segundo os teólogos, recriou o mundo sem pecados. Todas as religiões mais antigas em que o cristianismo se baseia descrevem o sacrifício de sangue como alicerce para a criação do cosmo. Na antiga religião mesopotâmica e senão me engano, na Cananéia, os deuses criadores mataram e desmembraram a deusa original, e com seu corpo, formaram a terra e o Céu. O sangue da deusa transformou-se nos rios e regatos. Na antiga religião persa, o deus Mitra sacrificou o touro cósmico para formar o mundo e, nos mistérios dionísicos, os adoradores de deus despedaçaram um bode vivo e beberam o sangue a fim de reviver suas almas. O vinho de Dionísio, como o da Eucaristia cristã, era na realidade o sangue divino. Mesmo a tradição judaica, que se tem oposto resolutamente ao sacrifício de sangue já desde a destruição do tempo de Jerusalém, tem como mito fundamental o quase sacrifico de Isaque por seu pai, Abraão. Mas alguns estudiosos acreditam que a versão original da narrativa levava o sacrifício até a morte.

Este tema é muito vasto e devemos ter o maior cuidado ao falar sobre, é necessário acima de tudo pensarmos e trazermos para nosso mundo todo o imaginário numinoso das culturas que praticavam esses rituais que para a maioria da civilização moderna é inaceitável, para podermos compreendermos os sacrifícios que eram feita outrora pelos nossos Ancestrais.

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