Vegetalistas

O xamanismo não se limita apenas as comunidades índias. Os xamãs mestiços, no Brasil, Colômbia, Equador e Peru, são denominados pelo nome de “vegetalistas”, em virtude da arte com que lidam com as plantas psicotrópicas, Plantas Mestras, para as suas visões. Têm antepassados nativos e europeus e falam o espanhol como língua mãe, exceto os que vivem no Brasil. Os vegetalistas incorporam técnicas e conceitos gerais como magia negra e branca, esoterismo, espiritismo, catolicismo, entre tantas outras. Além disso, perderam sua identidade étnica índia, mas continuam a praticar a forma de xamanismo característica da região Amazônica Superior.

Eles são curandeiros tradicionais que se transformaram e estão abertos a novas influências. Passaram ao longo do tempo a cumprir uma função política, social e religiosa, de proteção da sua comunidade contra ataques externos. Ao estabelecerem-se nos centros urbanos passaram adotar diferentes culturas, o que consideram necessário para melhorar suas práticas de cura. As cidades passaram a ser seu local de atividades, devido as novas enfermidades geradas pela falta de higiene e a pobreza. Geralmente, os povos mais humildes e que moram nas periferias é quem procuram os vegetalistas, pois não têm condições de arcarem uma consulta com médicos particulares e o atendimento estatal é precário na América do Sul. Existe também uma clientela que desiludidos pela medicina ocidental preferem tratar seus males através de uma medicina natural. Muitos trataram-se várias vezes curar-se com “remédios de brancos” sem conseguir êxito e muito menos saber a causa de seu mal. Depois de anos de sofrimento, se curaram com o “vegetal”, a Ayawaska. Os vegetalistas oferecem seus serviços como médicos “tradicionais”. Sua principal característica é a utilização de conceitos mágico-religiosos, crença nos espíritos, poderes sobrenaturais e divindades de todos os tipos. Sua ação médica se fundamenta no consumo ritualístico da Ayawaska, graças a ela visualizam a causa da doença e a forma adequada do tratamento. Os vegetalistas dedicaram-se por vários anos de sua vida ao estudo desta planta, passando por uma série de provas e restrições que o permitiram acender ao mundo da Ayawaska. Estes indivíduos, têm esta profissão como uma missão essencial que devem cumprir, alternando-a com um trabalho complementar para viver. Geralmente os pacientes que os procuram estão com problemas de cunho emocionais, físicos e psico-somáticos, tais como os vícios, questões amorosas, falta de sorte, perda da alma e olho gordo.

Entre os vegetalistas, um xamã mais velho junta-se por vezes ao aprendiz, a fim de o proteger dos maus espíritos e dos feiticeiros, “maleros”, bem como para lhes ensinar as regras de procedimento e alimentação. Para além de outros, os espíritos auxiliares antropomórficos, entre os vegetalistas, abragem xamãs mortos de outras tribos, médicos espanhóis, ingleses e japoneses, homens sagrados hindus e habitantes de outros sistemas solares e galáxias.

Muito dos espíritos auxiliares são animais, uma vez que estes são animados e dotados de propriedade úteis, de que os seres humanos não dispõem. O espírito jaguar torna o xamã forte e feroz e o espírito do rato possibilita o xamã a passagem por passagens reduzidas. Os espíritos ave e peixe proporcionam ao xamã a possibilidade de se mover livremente no ar e na água. Outros espíritos professores são as plantas, e muito em especial as medicinais, venenosas ou narcóticas. Isto é especialmente freqüente no Alto Amazonas.

Em sua iniciação, os vegetalistas seguem uma rígida restrição alimentar e jejum sexual, além de ingerir uma boa quantidade de plantas mestras com o intuito de que ele adquira em seu próprio corpo orgânico a forças das plantas que foram ingeridas neste período de dieta, absorvendo os espíritos dessas plantas. Entre os vegetalistas, a planta maestra Ayawaska é ela própria uma médica, um ser inteligente com espírito forte. Os vegetalistas acreditam ainda que os pintores e os músicos podem aprender a sê-los através das plantas.

O poder das palavras reside não só no seu significado mas também no seu efeito musical. Durante a cerimônia de cura com a Ayawaska, os vegetalistas acompanham seus movimentos energéticos sobre o corpo do paciente com uma série de cânticos mágicos designados de “ícaros”. Mediante estes cânticos, o xamã se comunica com o mundo dos espíritos e, dirige e transfere parte de sua energia ao paciente. O “ícaros” também são utilizados para carregar energéticamente objetos cerimoniais com o fim de dotá-los de poder antes de serem utilizados. O “ícaro” representa a essência do poder do xamã vegetalista. O xamã “icara” sempre a ayawaska antes de dá-la ao paciente. Podemos observar também o xamã “icarando” o tabaco, cânfora e água de florida. O canto, dentro do xamanismo, é considerado como o auge do potencial humano para o desenvolvimento. “Um homem é como uma árvore. Sob as devidas condições, desenvolve ramos. Os ramos são ícaros”.

O poder passa através de muitos objetos, substâncias, formas e ações. Entre vários povos da região peruana do Amazonas Superior, há um xamã que detém um aspecto de seu poder na região superior do estômago – que é a parte considerada mais importante do nosso organismo – sob a forma de um líquido branco e espesso. Este líquido contém espíritos auxiliares que o xamã invoca para a cura, bem como flechas mágicas, conhecidas pelo nome de “virotes”, que ele arremessa sobre as vítimas, a fim de as ferir. Quando a flecha procura a vítima e se espeta na mesma, é em parte objeto e em parte um ser vivo, em parte matéria e em parte espírito. Muito em particular nesta região do Peru, o poder toma regularmente a forma de plantas. O líquido regurgitado pelo xamã, após fumar e tragar o tabaco, é designado de yachay, que é um vocábulo que significa “conhecer”. Por conseguinte, representa poder e conhecimento. A substância mágica, os espíritos que auxiliam e as flechas são apenas três dos aspectos de um mesmo poder xamânico, que, por sua vez, consiste em conhecer como é de fato o mundo, e na capacidade de manipular os processos. O xamã regurgita parte deste líquido e dá a um aprendiz para beber, a fim de transmitir este conhecimento e poder.

Na visão xamânica do mundo, a doença é provocada por inúmeras causas. Pode perder-se uma ou mais almas do paciente, caso em que o xamã terá que viajar ao reino dos espíritos e combater por elas, para as trazer de volta consigo. Pode existir um objeto estranho no corpo do doente, como uma lagarta ou uma lasca de osso. O objeto poderia ser colocado por espíritos, ou então por um feiticeiro, “malero”, poderá ter disparado uma flecha mágica contra o paciente. Neste caso haverá ainda algo mais no interior do paciente, que terá de ser removido. O xamã extrairá e mostrará o objeto ao paciente. A doença também pode ser provocada pela violação de tabus básicos da moral e de uma conduta correta de vida. Atos deste tipo enfraquecem o paciente, através da debilitação das forças vitais. Por vezes a alma tem relutância em ser socorrida, por motivo de uma atração erótica. Os vegetalistas dizem que o povo da água habita o fundo do Amazonas num mundo de beleza, onde usam jacarés como canoas, tartarugas como mesas e botos como policiais. As sereias moram lá e estão sempre prontas a seduzir os pescadores. Quando um sucumbe aos seus encantos, terá de ser rapidamente socorrido, de outro modo, transforma-se numa pessoa do Povo da Água, e será depois impossível trazê-lo de volta. O xamã ingere a Ayawaska e entoa o “ícaro” de um ninacuru, um inseto de olhos grandes semelhantes a faróis. Para efetuar o reconhecimento, o xamã transforma-se numa espécie de “ninacuru”, entra na água e localiza a vítima, abraçada a uma sereia. O xamã regressa a terra e procura um colega, para a próxima jornada. Ambos ingerem Ayawaska, para entrarem ambos na água. Enquanto o colega distraí a sereia, o primeiro transporta o paciente. O homem socorrido grita e pretende voltar para a água, mas o xamã põe-lhe um crucifixo no peito, e ele recupera os sentidos e reconhece os familiares presente. O paciente então é tratado com uma série de plantas e “ícaros” que lhe ligarão a terra, e, embora nada recorde do que lhe sucedeu no fundo do rio, nunca mais será autorizado a pescar.

Os vegetalistas tratam também as doenças provocadas pela entrada de flechas mágicas, “virotes”, que estão contido no yachay, que como já expliquei anteriormente é o líquido que os xamãs e feiticeiros expectoram e que contêm a essência do seu poder. Os “virotes” são flechas maiores ou menores que estão suspensas no líquido da expectoração e que podem ser disparados pela boca contra uma vítima distante. Geralmente esta cura é processada após o xamã ingerir uma misturada que ele preparou de três plantas conhecidas e depois começa a regurgitar do estômago o líquido mágico. Quando este lhe chega à boca, passa cerca de uma hora a sugar o local atingido pela flecha, e, a medida que vai extraindo fragmentos da mesma, cospe-os na direção de onde tenham vindo. A mistura das plantas servem para abrandar qualquer efeito derivado do feitiço. Geralmente o paciente deve voltar mais algumas vezes para ficar definitivamente curado.

Todas as sessões de cura realizadas pelos vegetalistas são realizadas à noite e seguem noite adentro, tendo em média a duração de oito horas ou dependendo do caso, até mais. Durante a cerimônia o xamã se utiliza do tabaco (mapacho), ícaros, assobios, achacapa (um maraká feito das folhas do tabaco) e rezas. Alguns vegetalistas, geralmente aquele que moram em centros urbanos, tem um altar com imagens de santos e cruzes.

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