Xamanismo revis(i)tado

 

Quem conhece o autor, sabe da sua posição em relação ao Caminho Xamânico, porém, neste texto pretendemos fazer uma análise sociológica no lugar de uma xamanista, esperando atingir tal objetivo, porém, já sabendo que será um processo muito difícil. Nossa intenção neste artigo é esclarecer e pontualizar de forma sistemática alguns aspectos relacionados do Xamanismo e seu mundo de valores cognitivos e culturais, tentando evitar a opinião pessoal, desde que não haja material empírico para sustenta-la. Assim, não há ataque ou defesa, mas sim uma intenção de objetivar alguns fatores relacionados ao assunto em questão. Só a título de exemplo não existe evidências empíricas da existência de um mundo paralelo habitado por espíritos. Muito pelo contrário, a psicologia profunda mostrou que os chamados espíritos são, pelo menos em muitos casos analisados pela escola psicanalítica, projeções do mundo psíquico e inconsciente do próprio sujeito.

No entanto, o autor quer tornar público que tal postura crítica não faz parte de sua posição pessoal oposta a difusão dos estudos e temas referidos ao Xamanismo. Obviamente, pelo contrário. Nossas sociedades perderam o contato com as dimensões sacras da realidade, com o escuro abismo que todos levamos dentro de nós e do qual surge o sentido de nossas vidas, com a dimensão alternativa que o xamã opera em suas sociedades. Trabalhar para isso é trabalhar para propiciar um maior senso de existência entre nossos congêneres. Desta forma, uma boa parte dos vícios, compulsões e dependências seriam evitadas. Se fossemos capazes de enfrentar essa parte escura de nossos instintos, como fazem os xamãs, nos afastaríamos da vertigem social que está invadindo a população ocidental, da falta de senso crítico para os nossos políticos, e hipnose coletiva causada pelo consumismo hedonista e sem sentido em que vivemos submersos.

Apesar de tais preconceitos pessoais de caráter positivo, o autor procura ser tão rigoroso quanto possível em alguns aspectos relacionados com a recuperação de valores xamânicos, talvez os valores humanos mais intrinsicamente em termos antigos (e esperamos que na atualidade). Os processos de absorção de valores culturais estranhos devem ser realizados com tranquilidade e meticulosamente, devendo ser capazes de digerir no seu ritmo e com muita atenção. Caso contrário, facilmente se converte num folclore exótico e vazio, ou fonte de conflito. Não é fácil fazê-lo. O caminho ingênuo leva ao barateamento do Xamanismo, transformando-o em um mero produto do mercado e isso ocorre com uma assiduidade excessiva. Daí a postura crítica do autor em direção algumas frívolas e desatinadas manifestações do neoxamanismo. Não quero dizer que não se deve tentar uma recuperação de tais dimensões e potenciais humanos, sim que se deve ser feito adequadamente. Nem estou contra certas movimentações da Nova Era porém, como sociólogo, preferia manter a experiência e a expressão xamânica e, talvez, para cunhar o neologismo necessário para se referir às estratégias cognitivas adaptativas que estamos construindo sob este rótulo: psiconautas, farmacologistas, técnicos do imaginário ritualístico…

Dada a enorme importância do Xamanismo, e papel social e cultural que teve durante um longo período da história da humanidade, não é de surpreender que reapareça ao mesmo tempo sob formas terapêuticas e neo-espirituais atuais, áreas que mostram uma grande tendência para se unificar no mundo ocidental. No universo indígena clássico se misturavam as práticas curativas e crenças espirituais. Não deve se entender como um fato casual que está combinação de campos culturais (espiritualidade e medicina) renasçam nos dias atuais. Esta mescla é notada hoje em diversas revistas ocidentais de grande tiragem, que oferecem uma gama de artigos neoxamânicos, religiosidade, novo humanismo, ecologia, meditação e espiritualidade em qualquer de suas manifestações, ao lado de textos sobre cozinha natural, medicinas alternativas e nova terapias. No entanto, tal renascimento requer uma análise meticulosa se não quiser cair nas distorções e fantasias românticas que hoje abundam em referência à figura do xamã.

Desde o meu ponto de vista, temos que entender o Xamanismo clássico como um campo específico no qual ocorrem profundas experiências estruturais, que tanto afetam o mundo individual como o social. Em alguns âmbitos das sociedades ocidentais, onde o Xamanismo desapareceu há algum tempo, se observa um ressurgir de treinamento cognitivos. É interessante (e desanimador) para um escrupuloso pesquisador verificar que, apesar dos improváveis avanços do pensamento científico, algumas manifestações do denominado neoxamanismo alimentam afirmações insustentáveis para o pensamento lógico, de estilo: o transe extático xamânico permite ao indivíduo voar por um mundo invisível povoado de espíritos e de esotéricos poderes mentais, tal como defendiam os antigos xamãs, mas acreditando ao pé da letra, e não como forma metafórica de expressão.

Nietzsche afirmou que o século XIX, foi um século em que todo mundo buscava a salvação e o Séc. XX buscariam a cura, embora com o mesmo fervor e atitude com que antes buscava a salvação. A corrente reducionista insiste em afirmar que a função do xamã é a de curador esotérico, ao invés de coloca-lo no centro de uma determinada e complexa cosmovisão das diversas que produzido a humanidade, parece dar razão ao filósofo alemão.

 

Xamanismo, mais uma vez, está na moda. Neste caminho, sabemos que não existe um tipo só de xamã, senão diversos. E agora vemos surgir uma série de indivíduos que fazem um workshop de final de semana e acredita ter se tornado um xamã. Ledo engano, pois para se tornar um xamã é necessário ser convocado pelo Mundo Espiritual e passar por uma série de provas iniciáticas. O que vemos neste modismo xamânico (xamania) é que existe uma série de cursos rentáveis sobre Xamanismo, plantas xamânicas, artes do xamã e uma série de produtos sobre o tema.

Há quem busca um tratamento xamânico para salvar sua vida ou curar as suas neuroses. Outros em suas férias, fazem uma viagem turística a lugares exóticos com o propósito de encontrar um xamã nativo que mude a sua vida vazia; inclusive existe pessoas que buscam um assessoramento xamânico para tomar decisões. Do outro lado da moeda e respondendo a essa demanda do Mercado de Crenças, de terapias exóticas e espiritualidade distantes, alguns indivíduos se autodenominam xamãs e oferecem seus serviços (por meio de um pagamento) para satisfazer tal demanda. As sociedades nativas, por sua vez, recebem um crescente número de ecoturistas e etnoturistas, e têm aprendido a oferecer serviços xamânicos sob medida para esses consumidores que têm dinheiro e os entrega sem pechinchar, embora tal oferta não tenha uma relação tradicional com o seu sistema xamânico. Xamãs mais sérios tendem a fugir deste teatral mercado turístico. Mas isto não implica que eles se recusam a aplicar suas artes aos gringos, mas que eles não são geralmente oferecidos ao maior lance em dólares. Infelizmente, grande parte da tarefa xamânica tornou-se apenas mais um produto a ser vendido no mercado de crenças e especulações em que transformamos a Terra.

Por outro lado, o Xamanismo e seus múltiplos aspectos de caráter técnico (mecanismos de atuação do xamã, uso de plantas enteógenas, curas alternativas, formas de ampliação da consciência, etc.) se tornaram um tema de crescente importância dentro do campo da investigação científica próprios da antropologia, psicologia e etnopsiquiatria, inclusive a etnobotânica, neurociência e a inteligência artificial.

Em terceiro lugar, deve-se notar que praticamente todas as sociedades ditas primitivas da Terra, estão passando por horrível e dramático processo de ocidentalização. Sua condição frequentemente é de anomia profunda. Essa realidade geralmente implica um alto nível de ansiedade vital em face da perda frenética de seus reais valores tradicionais, de sua forma de subsistência, inclusive de sua estrutura social e seu idioma. Nesta situação é onde a figura do xamã e os valores que o rodeiam surgem como um suporte de resistência que ajuda a manter uma certa serenidade e identidade entre seus congêneres. No entanto, esse Xamanismo resistente é muito frequentemente situado na margem oposta do xamanismo de consumo que atinge o Ocidente.

Em alguns casos, como sucede na longínqua e gélida Sibéria, se formam novas associações de xamãs tradicionais que renascem das cinzas. O xamã siberiano esteve durante muitas décadas em silêncio, já que o regime comunista soviético via no Xamanismo uma forma de cultura retrógada a ser eliminada, e se dedicou a isso com afinco. Em outros casos, como os dos indígenas amazônicos, são obrigados a emigrar de seu habitat natural (a floresta úmida tropical) para buscar novas formas de sustento entre as indústrias nascentes dos mestiços que habitam os limites da selva. Esses nativos amazônicos cujas vidas foram transformadas dramaticamente, muitas vezes voltam de tempos em tempos para o interior da selva para tomar suas bebidas visionárias das mãos do xamã: ayahuasca, tabaco silvestre e suco de brugmansia (maykua). É sua estratégia para entrar em contato com seus próprios valores ancestrais, com arquétipos, e assim manter uma ordem relativamente estável em sua vida psíquica.

Não obstante e com a exceção dos povos de tradição cultural xamânica citados em terceiro lugar, o interesse dos dois primeiros grupos pela magia tribal indígena se baseia num claro paradoxo.

De um lado estão os seguidores (cada vez mais numerosos) da moda xamânica. Neste mercado de valores observamos desde pseudopsicoterapeutas, muito deles com títulos universitários que oferecem terapia xamânicas, até vendedores de camisetas e outras roupas de consumo que se anunciam com desenhos inspirados em xamãs (obviamente, quase nunca se menciona de que etnia foi inspirado o desenho: muita precisão ofende a fantasia do consumidor).

Devemos acrescentar a este amplo grupo de consumidores de crenças aqueles indivíduos que têm uma raiz próxima ou distante de alguns povos indígenas e que, explorando tais origens exóticas, muitas vezes esquecidas por décadas ou gerações passadas, oferecem seus serviços como xamãs de grande poder. Como esperado, na maioria das vezes se trata de sujeitos astutos e amantes do dinheiro que exploram a credulidade de alguns estrangeiros dispostos a pagar por adquirir uma presumida nova técnica de relaxamento, para ter uma insólita experiência com substância psicoativas ou sem ela, ou para ver de perto um milagreiro de quem se espera que, por magia, resolva o vazio existencial de suas próprias vidas dedicadas a seguir as modas estéreis de consumos.

Neste grupo de consumidores hedonistas, quase ninguém sabe com exatamente como é um xamã, embora haja muita conversa sobre ele. Poucos percebem que a existência de um xamã exige inevitavelmente de um contexto cultural xamânico, assim como precisamos de oxigênio para viver. E que nossas sociedades não são xamânicas, embora mantenham uma memória distante e folclórica da figura do xamã. Segue-se, estritamente falando, não poderia haver um xamã no Ocidente da mesma maneira que um ser humano não pode viver sem oxigênio. O que ocorre é que nós temos algumas questões básicas a serem respondidas, perguntas essenciais para todo ser humano: Quê sentido tem a vida? Por quê existimos? O quê espero da minha vida? Qual a nossa função na Terra? Estas perguntas até hoje permanecem sem uma resposta confiável e sólida. Embora a respostas não sejam corretas, cada um de nós deve ver até onde pode responder.

Cientistas sérios e honestos sabem muito bem que a ciência não pode, por si só, dar respostas a grandes questões sobre a existência humana como estas. Mas por outro lado, há uma necessidade desesperada de alguma abordagem à vida que restabeleça a confiança essencial no meio de um mundo perplexo. Assim, portanto, surge a urgência de uma visão de mundo nova e novos valores para preencher esta lacuna dramática na vida ocidental. E aí os exóticos xamãs que, precisamente por serem distantes e desconhecidos, suportam nossas projeções de tais necessidades.

No conjunto é um terreno fértil para o grande potencial de pesquisa da mente humana, mas também para que floresça fortemente o que tem sido chamado de pseudoconhecimento: como a ciência tem mostrado incontestavelmente a antiguidade do ser humano na Terra remonta a centenas de milhares de anos, e essa origem parece recuar cada vez mais em direção a um passado distante. Apesar de que mais de vinte por cento dos ocidentais estarem convencidos de que o ser humano não tem mais de dez mil anos de antiguidade, porque assim diz a Bíblia. Sem comentários. Embora tamanha ignorância produza vergonha alheia. Por desgraça, a mesma implantação do pseudoconhecimento entre a população ocidental (inclusive setores mais cultos) poderíamos ilustrá-los com inúmeros exemplos retirados do neoxamanismo e do mercado de crenças: ovnis e extraterrestres, demônios que regressam do passado, curadores milagrosos, amuletos e pedras para resolver quase tudo, energias sem adjetivos que atuam sem saber como, e experiência do além. Em resumo, afirmações que nunca foram demonstradas com um mínimo de confiabilidade, mas que muitos acreditam mesmo sem passar pelo filtro da dúvida.

No outro extremo do paradoxo, encontramos cientistas que enfrentam um campo de estudo localizado no limite do compreensível pela ciência e exige que o pesquisador se coloque como cobaia para auto-experimentar, o que muitas vezes parece incompreensível, incognoscível e inacessível para o pensamento ortodoxo. O mundo do Xamanismo, com seus estados alternativos de consciência que o caracterizam, é um universo de relação não de objetos e se o observador não se submete a tal mudança de sua relação com o mundo não há uma forma metodológica de fazer uma investigação rigorosa. E aqui surge a questão fatal e paradoxal colocada pelo ponto de vista científico clássico: o quê ocorre quando o próprio investigador abandona seu cômodo afastamento daquilo que tem que estudar, submetendo-se a uma mudança de sua relação com o mundo, mudança apenas observável da própria dimensão subjetiva do sujeito.

É sabido que essa dimensão é geralmente invadida pelas projeções individuais, lembranças da infância e elementos do inconsciente. Com isso estamos caminhando pelo limiar que divide os campos da atividade humana tradicionalmente divididos em religião, arte e ciência, e isso sempre implica num grave perigo, mas também é um campo mais fértil que existe para o avanço do conhecimento do mundo. A credulidade é tão perigosa e infantil quanto a posição de alguns professores universitários que negam a existência do Xamanismo porque é, em essência e até agora, quase incontestável. Tal atitude está mais próxima do dogmatismo religioso do que o necessário e saudável ceticismo científico. Uma coisa é ser cético (“até que não vejo ou experimento não acredito”) e outra é ser incrédulo (“não acredito embora veja”).

 

Na atualidade existe um processo de evangelização dos povos indígenas, sul-americanos principalmente. Caso o xamã cure com plantas com propriedades medicinais, é denominado “curandeiro” e os missionários católicos e protestantes o aceitam como um substituto do médico dos brancos. Inclusive despertam uma simpatia pelo seu exotismo e também porque a fitoterapia ocidental está assimilando em sua prática, o uso destas ervas que curam. Já se os xamãs curam o atua por meio do consumo de substâncias psicoativas que lhe permitem por em contato com que eles chamam de espíritos aliados, que aparece para ele em visões reveladoras, os missionários os condenam instantaneamente. Não existe uma teologia da libertação que aceite esse tipo de cura. Infelizmente, verificamos neste caso que, o terreno dos espíritos, dos poderes invisíveis e das almas – do inconsciente – é propriedade estrita de um grupo social dominante.

Hoje, o Xamanismo não é mais demonizado como até épocas recentes, mas é elogiado e convertido em objeto de consumo, mas o processo de simplificação é equivalente. A etnografia tem reportado práticas de povos não-industrializados que poderiam ser igualadas ao Xamanismo primitivo, mas quando se as inclui, não paralelamente, mas sob o mesmo rótulo, instantaneamente as deformam. As forçam a encaixar com o modelo dominante unificado do que deve ser um xamã. E isso ao custo de eliminar especificidades étnicas e atributos funcionais de cada uma dessas práticas.

Sabemos muito bem o que ocorre quando xamãs indígenas recebem alguma visita do mundo ocidental. O mais provável de acontecer, se é um xamã pouco ocidentalizado, é se surpreender com a demanda por tratamento do estrangeiro. Logo ele descobre que os turistas pagam bons dólares para o xamã fazer algo com eles, descubra o significado de sua vida ou cure doenças reais ou imaginárias, mas ocorre que o desempenho de muitos xamãs não tem nada de espetacular ou vistoso. São geralmente procedimentos muito simples e íntimos que fazem sentido para eles e seus congêneres, para mais ninguém. No entanto o xamã percebe que o turista espera algo um pouco mais pomposo, algo que o ocidental possa ser capaz de tirar fotos da cura transcendental que ele procurou. O xamã descobre a imagem que o turista espera dele e decide assumi-la como sua. Aí se inicia o processo de espetacularização. O xamã começa a misturar elementos que têm um sentido xamânico intrínseco com outros de sentido extrínseco para o público. Ou seja, faz coisas (canta, dança, se disfarça) para que a cura seja mais espetacular, consumível pelos espectadores que chegam até ele, mais de acordo com o padrão que têm os visitantes de que deveria ser um poderoso xamã nativo. Se a seus congêneres, por exemplo, lhes prescrevem um mês de abstinência sexual para curar qualquer doença e estes obedecem acreditando que realmente serão curados, já para os turistas o xamã irá vender um amuleto feito de sementes exóticas e com penas, aconselhando-os a colocar no pescoço, sabendo que atrairá outros turistas quando os ver. Os xamãs geralmente não são tolos ou inocentes.

 

Atualmente no Ocidente existe um grande interesse no Xamanismo tribal. Mas na maioria das vezes, a ignorância impera sobre os fatores e características reais que cercam a figura do xamã nativo.

Podemos afirmar que desde a década de 1960 um pseudo-xamanismo, inspirado de longe por povos exóticos, vem se difundindo. Estas formas românticas de xamanismo ocidental são usadas como um modelo para o consumo de substância visionárias, para justificar qualquer terapia nova e mesmo como o núcleo de uma certa orientação de evolução pessoal, misturando elementos exóticos, ecologia urbana, romantismo tecnológico, interesse esotérico e preferência por produtos biológicos.

Alguns Ocidentais busca assessoramento para sua vidas, outros falam de uma democratização do Xamanismo, com que cada pessoa possa ter a oportunidade de se converter no seu próprio xamã – como se tivesse algo a ver o Xamanismo clássico com a democracia – ; alguns jovens consideram a forma definitiva de liberdade individual alcançável através do transe da dança seguindo os ritmos da música elaborados pelos grupos xamânicos de trance music. Outras pessoas entendem o fenômeno como uma forma dogmática e não eclesiástica de espiritualidade; há quem veja no Xamanismo o modelo perfeito para tomar enteógenos, seguindo assim as tradições milenares elaboradas pela humanidade para alcançar uma experiência extática. Nesse sentido e para acabar com estas pinceladas da realidade atual, há grupo de terapeutas profissionais e pseudoterapeutas que vêm no Xamanismo uma forma de psicoterapia individual e social perfeita, e a oferecem aos seus pacientes. Muitas vezes é vendida a terapia xamânica como se fosse uma técnica tão simples quanto cozinhar molhos exóticos para salada. Alguns terapeutas e outros oportunistas chegam a organizar viagens supostamente curativas (que denominam transpessoais) ao Brasil, Bolívia, México e Peru da mesma forma que as tradições orientais fazem as peregrinações a Aparecida, Fátima, Lourdes, Compostela ou ao Monte das Oliveiras. Em resumo, ao lado do xamã tradicional, hoje existe um Xamanismo de consumo ingênuo – nem tanto – que faz parte do supermercado de crenças que o mundo se tornou.

Também se aproveitam desta moda alguns autodenominados xamãs, que viajam desde a América ou Ásia contratados por grupos ocidentais para dirigir sessões supostamente milagrosas. A maioria dos xamãs exóticos são simplesmente exploradores (se não perigosos) da credulidade ou da necessidade de orientação espiritual que os ocidentais necessitam, oferecendo sua “sabedoria ancestral” a bons preços de mercado e difundindo-se através de métodos alternativos: internet, revistas especializadas, boca a boca, anúncios em livrarias, centros e lojas esotéricas. Com isso não quero negar a existência de um Xamanismo com raízes sólidas que hoje se estende além das fronteiras culturais das sociedades primitivas; nem é uma questão de negar a possibilidade de adaptar modelos indígenas experientes para o uso seguro de enteógenos. O principal motor cultural da humanidade tem sido a difusão de características culturais. No entanto, geralmente há casos excepcionais que nos permitem falar sobre um Xamanismo importado, mantendo alguns conteúdos originais em segundo plano.

 

Um aspecto importante a ser considerado em referência ao Xamanismo Clássico – assim como o uso de enteógenos – é que ele é um fenômeno extremante camaleônico. Desaparece e reaparece constantemente ao longo da história da humanidade dentro das mais diversas tradições culturais e regionais. Esta expressão do esforço humano é tão variada que se pode falar de certo Xamanismo de acordo com as formas que ele assume entre os aborígenes de todos os continentes.

Nesse mesmo sentido, encontramos xamãs em contextos políticos e espirituais extremamente variados. Eles variam de qualquer cidade europeia ou norte-americana hoje, onde xamãs autóctones ou importados proliferam de cantos exóticos da América ou do Extremo Oriente, até no Xamanismo localizado no coração da corte imperial chinesa, onde Imperador Pu-Yi atuava com oráculo xamânico até ser deposto pelo governo de Mao em 1950. Ao lado destas estruturas sociais complexas – ainda que marginalmente – alojam em seu interior algum sistema xamânico ou pseudo xamânico, a figura do xamã parece particularmente forte entre os mais remotos grupos tribais e agrários mais afastados da estrutura social do estado, perdido em selvas remotas e florestas úmidas da Ásia, África e América. Portanto, ao invés de procurar uma instituição com uma certa forma social que podemos chamar de modelo xamânico, o adequado é que o foco esteja na própria figura do xamã.

Não é possível manter a imagem romântica do xamã como alguém capaz de saltar das condições culturais prévias e penetrar em pretensos mundos alternativos habitados por seres poderosos. Todo xamã está imerso em um contexto social e cultural específico que condiciona sua construção da realidade a níveis muito profundos, da mesma forma que acontece com qualquer outro ser humano. Não é que a cultura determine os processos cognitivos do indivíduo em termos não ambíguos e imutáveis: podemos transcender nossas origens culturais e sociais; os humanos têm o potencial de escapar a uma certa parte do destino que é prefigurado pela cultura que nascemos. Ou seja, podemos acessar um estado transpessoal e transcultural de experiência de vida. Mas, é claro que tal façanha não se trata de qualquer futilidade que possa ser alcançada num seminário ou workshop de fim de semana, como é anunciado tanta vezes no universo neoxamânico ocidental. Por outro lado, o Xamanismo constitui uma maneira de resolver os problemas sociais, os fantasmas de nosso próprio inconsciente e traumas causados por mudanças ecológicas, daí a necessidade de compreendê-lo como técnicas adaptogênicas. Mas a maior parte do neoxamanismo ocidental é apenas mais uma desculpa para fugir do confronto com tais conflitos envolvendo-o numa aura de torpor complacente.

Apesar de muitas vezes parecer estar à margem da tribo que vive, o xamã não é um indivíduo que está acima ou fora das condições e interesses culturais de sua comunidade. O que está à margem, e só de certo modo, são as relações que estabelecem sua metáfora social; é o xamã que gera novas metáforas para expandir o panorama sobre e do que falar, e poder viver com os seus congêneres. É precisamente esse sistema cognitivo aberto, ou conjunto de decretos sistemáticos que o xamã usa para construir sua realidade.

Cada um dos indivíduos que fazem parte de uma comunidade xamânica, comparte da mesma cosmovisão sobre o tema dos estados mentais e das diversas dimensões da realidade a que se refere o xamã da sua tribo. Eles usam as mesmas metáforas para se referir a ele, pois habitam o mesmo mundo de fatos, e se o xamã falece, seu próprio contexto social e cultural gera (ou busca) imediatamente um novo indivíduo para exercer as funções xamânicas na comunidade. Esta continuidade não acontece em nossas sociedades pós-industrializadas, pelo simples fato de que não vivemos em grupos regidos por uma cosmovisão animista de natureza xamânica. Cada pessoa é uma imagem fractal da cultura global em que vive e a qual, por sua vez, reproduz com uma série de modificações.

Pode-se dizer que o xamã, usando seu próprio mapa interno do mundo que criou, leva o paciente de uma metáfora de uma realidade para outra. Cria novas formas de relacionamento entre objetos e eventos, relações que precisam ser mais efetivas para a vida do cliente. Tais metáforas são mapas mentais alegóricos; eles são usados para se orientar e para se deslocar de um estado mental a outro, e este é o caso mesmo se eles são mencionados como se fossem realidades físicas. Esses lugares alternativos da imaginação humana a que o xamã dá forma por meio de metáforas, são vividos na forma de estados mentais dialógicos. São lembranças das experiências profundas que o xamã experimentou durante sua própria iniciação, e que ele agora comparte com os outros membros de sua sociedade por meio de um sistema simbólico que constitui sua (particular) construção e expressão do mundo.

Estas são experiências essenciais no sentido de que elas vão além das formas fenomenais momentâneas; que as pessoas, a partir de tais experiências, podem guiar suas vidas curando a neurose dominante da existência sem sentido. Mas alguém, o xamã, deve moldar essas experiências transcendentais para que elas possam ser transmitidas e compartilhadas e para que aqueles que não vivenciaram possam ter um modelo disso. Desta forma, tais experiências internas são incorporadas à cultura do xamã e seu grupo, fazendo com que outros congêneres concebam a realidade da mesma maneira. Não podemos esquecer que a própria cultura desperta experiências pela indução de valores.

Assim, o fenômeno do Xamanismo escapa como água pelos dedos toda vez que se intenta captar conceitos válidos e abstratos de caráter universal. Como resultado, o pensamento científico nega há anos a existência de um conteúdo próprio do Xamanismo que vá além de pura fenomenologia. Infelizmente, há em várias universidades (americanas e europeias) professores de antropologia que continuam a negar a existência desse fenômeno além da teatralização psicótica e projetiva das sociedades primitivas. No melhor dos casos, esses docentes reconhecem apenas a parte teatral do desempenho do xamã como um convênio social. Eles são suficientes como uma visão sociológica distante. De certa forma, eles não estão totalmente sem razão em suas atitudes estritamente negativas, pois para alcançar o transe extático que caracteriza o fenômeno do Xamanismo, deve haver uma forte predisposição individual inicial. Nem todos os presentes têm uma cartase quando os rituais são realizados e se ouvem o som de músicas fascinantes. O antropólogo (falecido) Michael Harner e seu Movimento Neoxamânico afirmam que o som grave do tambor num ritmo um pouco mais rápido que duzentas batidas por minuto, permite o indivíduo a entrar em Estados Alternativo de Consciência e despertar o imaginário humano. No entanto, é certo que o xamã siberiano diz entrar em um estado de transe sob este impulso sonoro, não é assim que acontece com os membros da plateia ao seu redor, a menos que não seja isso que se espera deles. Isso significa que, embora possa ser algo terrivelmente suspeito para uma primeira análise científica, os ouvintes também devem fazer sua própria contribuição psíquica para mergulhar em tais estados mentais.

A postura racional que só vê o fator teatral do xamã clássico, no sentido de pensar que suas visões e revelações são simples fantasias aprovadas por seus pares, na aparência, é reforçada por outros fatores verificáveis. Assim, por exemplo, deve ser aceito que entre as populações indígenas há tantos enfermos (como fora delas), com ou sem a atuação dos xamãs locais. Por outro lado, os xamãs de todas as culturas animistas reafirmam constantemente sua identidade social de maneira espetacular: as letras das canções que cantam durante os seus transes, ou para induzi-los, quase sempre enfatizam o quanto é poderoso o poder dos xamãs na luta contra os espíritos inimigos, sua temível força e eficiência xamânica.

De uma maneira muito interessante, a mesma coisa que acontece entre os xamãs pode ser observada entre a classe médica de nossas sociedades. Os médicos e cirurgiões, em geral, constituem a única classe profissional que preenche as paredes de seus consultórios com todos os seus diplomas universitários e certificados de participação em congressos e seminários. Acontece que frequentemente os títulos que decoram as paredes do quarto não tem peso acadêmico, mas sim um importante papel simbólico uma vez emoldurados e expostos à visão de pacientes. Nunca vi a paredes de escritórios de advogados, arquitetos ou engenheiros decorados com todos os seus títulos e certificados. Sem dúvida, esta é a forma como auto conversar dos nossos médicos embora, obviamente, não é um produto do seu egoísmo corporativista, mas que tais demonstrações de poder têm a ver com um conjunto de concepção teatral que favorece o resultado positivo da terapia empregada, independentemente de os terapeutas estarem ou não consciente disso.

Não se trata de atacar nossos profissionais médicos ou xamãs, mas para destacar o fenômeno de predisposição do paciente, a sugestão é um fator universal que favorece o sucesso da terapia, seja independente e além de outras variáveis farmacológicas, energéticas, cirúrgicas ou espirituais. Assim, é um erro do produto de preconceitos etnocêntricos de alguns estudiosos julgar a ação xamânica somente por um fator teatral ou sugestivo, especialmente quando na nossa medicina científica o fator placebo desfruta de um peso maior a cada dia. Julgar o xamã apenas por sua ação teatral e seus estranhos ornamentos, às vezes, seria como valorizar a eficácia de um medicamento pela cor do seu recipiente.

Mas vamos nos concentrar na função do xamã na sua sociedade. Isolar a função do xamã, como faz a maioria dos neoxamãs e seguidores do transpessoal, é um reducionismo extremamente errôneo. É muito provável que, para o Xamanismo Original, a tarefa sangrenta de obter animais para o sustento humano seja um objetivo muito mais importante do que curar os enfermos. Na minha opinião, o interessante e a quase obsessão ocidental pelas terapias em um sentido amplo (alimentação saudável, consulta médica à menor doença, auto-ajuda de crescimento espiritual) é um fator que gera uma ideia quase teológica de saúde. Esta nossa cosmovisão que valoriza especialmente a dimensão terapêutica do Xamanismo, enfrenta de frente a realidade etnográfica e analisando mais profundamente, notamos que a nossa visão popular não se encaixa com as fontes etnográficas. A terapia é só uma das atividades do xamã tradicional.

Afinal, os xamãs realmente curam? Em primeiro lugar, e de acordo com a minha experiência e observações de campo, os xamãs não curam doenças virais ou bacterianas por meio de suas técnicas mentais de manipulação do imaginário. Talvez eles possam se encarregar destas patologias, mas a tratarão por meio de plantas ou outros recursos materiais, mas não mentais.

Em segundo lugar, para compreender o sentido da questão acima (cura ou não?), devemos insistir que a construção da realidade dos povos xamânicos diverge significativamente da nossa, como entender e viver a vida. Portanto, para responder se o xamã cura ou não, o primeiro passo será entender qual é sua ideia desse conceito complexo que chamamos saúde e qual é sua ideia da disfunção ou doença a ser curada.

As sociedades orais têm uma ideia ontológica do que existe, muito distante da nossa visão. Em geral, a individualidade (o que geralmente entendemos por ego) tem sido pouco desenvolvida, por isso muitos de nós ficamos impressionados com o grande distanciamento desses povos: justo porque, para nós o egoísmo e o individualismo são muitas vezes uma fonte inesgotável de problemas pessoais, embora também tenham suas grandes vantagens evolutivas. Por outro lado, nosso ego desenvolvido como o centro do cosmo psíquico é completamente oposto ao dialogismo mental do mundo xamânico, já que, durante o êxtase, o xamã se dissolve em seus diversos personagens ou impulsos interiores. Para eles a construção do mundo e dentro da ideia de saúde, esta está ligada a comunidade, ao bem-estar coletivo e a relação com meio-ambiente que é concebido como habitado por seres invisíveis que estão sempre a vista deles. É muito comum que o xamã prescreva a um grupo a cura para uma doença individual, pois o mundo é concebido de uma maneira sistêmica e não como uma soma de elementos isolados.

Assim, insisto, é um erro pensar na figura do xamã como algo isolado de seu contexto cultural e de suas raízes cognitivas. Tal figura não existe em nenhum lugar da Terra. O que existe, são os sistemas culturais xamânicos. É importante ignorar que o xamã cumpre um papel social específico positivo e negativo culturalmente construído. As manifestações xamânicas fazem parte de um padrão de representações e símbolos com uma lógica interna complexa que depende do próprio arcabouço cultural. A vocação sentida por cada pessoa é guiada pelo número total de papéis previstos por sua sociedade.

O xamã não tem nada a ver com um místico privado, mas existe para servir a comunidade, identifica-se com ela e faz parte dela. Seu papel principal consiste em regular e ajudar a preservação da alma da comunidade (os valores explícitos e inefáveis), e isso implica uma moral neutra do ponto de vista universal. Os espíritos que para alguns podem ser amigáveis, aos outros são hostis, daí a ligação entre xamã e violência é mais evidente quando duas tribos estão em conflito. Ao contrário do que as vezes parece crer, estudos realizados sobre o modo como os xamãs agem em sociedades não ocidentais enfatizam que suas práticas não são secretas nem realizadas para propósitos estritamente individuais, de acordo com a nossa concepção do termo. Estas são ações cujo principal objetivo é restaurar ou reproduzir uma certa visão do Cosmos. Daí, novamente, a grande dificuldade de falar sobre um xamã ocidental, atribuindo os mesmos parâmetros que um exótico tem. A divisão entre religião e magia, o que tem causado muitas discussões entre nossos especialistas sobre o assunto, é uma divisão puramente ocidental e tem a ver com a nossa cosmovisão, não com a indígena.

O xamã está intrinsicamente relacionado aos conflitos de sua própria sociedade e a busca de uma resolução efetiva. Para fazer isso, ele não se move em um modelo fixo da realidade, mas graças a estados de transe e o uso de enteógenos, age de acordo com diferentes modelos da realidade que implica um grande dinamismo cognitivo, enfatizado pela antropologia simbólica. Nesse sentido, poderíamos entender que os modelos de realidade que cada cultura elabora servem para organizar a realidade caótica e passar por ela, mas também para evocar e criar disposições nas pessoas de acordo com esse modelo. Por exemplo, em nossas sociedades industrializadas existe a fantástica e cinematográfica figura do xamã exótico e do poderoso, mas na realidade elas respondem aos nossos modelos e disposições, diferentes daquele que têm nas sociedades orais. No mesmo sentido, nossos jovens têm disposições, adquiridas culturalmente, ao sofrer doenças que outras sociedades desconhecem: anorexia, bulimia, depressão e outras.

Como conclusão, o Xamanismo deve ser entendido dentro de seu sistema cultural, em relação à eficácia que tem de generalizar realidades e, ao mesmo tempo, responder e gerar expectativas nas pessoas de acordo com os parâmetros da sociedade que as gera. A eficácia do Xamanismo deve ser pensada num duplo sentido: instrumental (por exemplo, para mudar o mundo), e experimental (incentivar transformações a nível psicossomático).

 

Assim, para finalizar esse artigo, poderíamos lembrar que o xamã é um indivíduo visionário inspirado e treinado para decodificar sua imagem mental. Seguindo seu próprio interesse, em nome da comunidade que serve e com a ajuda do que ele concebe como seus espíritos aliados ou guardiões, entra em um transe extático profundo ou numa excursão psíquica sem perder a consciência desperta do que está vivendo. É capaz de se lembrar de si mesmo a todo momento, e isso o livra da loucura. Durante esse estado de dialogismo mental, seu ego sonhador desperta relações com entidades que o xamã experimenta como imaterial e podem, em certa medida, depender de seu poder pessoal sobre tais entidades (o de seu inconsciente), modificar a ordem do cosmo invisível com a intenção de restabelecer a harmonia social e a saúde. Nesse sentido, o Xamanismo clássico constitui um sistema de técnicas para confrontar diretamente os conflitos psicológicos, sociais e ecológicos aos quais ele é submetido o xamã. Ao contrário desta atitude e função, a maior parte do chamado Xamanismo ocidental, no sentido oposto, pode ser entendido como um sistema de clamor e evita seus próprios problemas e conflitos. Isto não implica que um Xamanismo das sociedades industrializadas seja impossível, mas que tais técnicas não passam de importação de elementos folclóricos das sociedades exóticas fingindo uma funcionalidade transcultural imediata.

Wagner Frota

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